Brasília-DF,
25/ABR/2019

Crônica da semana: Aquela camisa amarela

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Paulo Pestana Publicação:15/06/2018 06:07
Sempre de camisa social —  e com bolsos, onde guarda papéis amarfanhados —  ele apareceu no bar naquele final de manhã vestindo uma camiseta amarela; não tinha número nas costas, nome de jogador e nem o escudo da CBF, mas era evidente que era o tal clima da Copa do Mundo chegando. Ninguém falou nada, mas havia espanto no ar. Afinal, tratava-se de um recalcitrante.

Nos últimos meses, se recusava a falar até em Brasil — substituiu pelo genérico “país” — e o gentílico brasileiro virou “essa gente”. Seus discursos contra o impeachment da presidenta e os regozijos a cada encalacrada do substituto e seus aliados eram histriônicos. Acabaram com qualquer discussão política no ambiente quando ele estava por perto.
 
Mais do que a falta de vontade dos outros em debater com um irredutível, havia um pedido do dono do estabelecimento, certamente preocupado com fiscais do silêncio e da decência. Mas aquela camisa amarela, como no samba de Ary Barroso, mudou tudo. Ele parecia resgatado e nem reclamou pela centésima vez que os craques do escrete nacional moram fora do país — “quase estrangeiros”, dizia.
 
Muitos estudiosos já perderam tempo tentando descobrir por que o futebol representa tanto para o brasileiro. Na verdade, não importa. Mesmo antes do primeiro título mundial, há 60 anos, o futebol exerce um fascínio que ultrapassa o simples ufanismo; e não é apenas porque ele nos representa entre os melhores do mundo —  para isso temos o vôlei.
 
A cidade já viu decorações de rua mais empolgadas, mas aos poucos aparecem meios-fios verdes e amarelos, lábaros expostos nas janelas e até bandeirinhas nos carros. Aquele fatídico 7x1 parecia ter tirado a graça da folia antecipada, mas se um recalcitrante começa a se render ao escrete, é porque o vento mudou.
 
Nosso amigo não se ufana. É daqueles que, como as misses, ainda acreditam na paz mundial, num mundo sem fronteiras e concorda com Samuel Johnson quando diz que todo patriota é um patife.
 
Mas na hora em que o time dele entra em campo, vira um ogro furioso, a favor de qualquer ação —  principalmente as mais baixas —  que façam a vitória mais fácil. Mas reclama dos políticos que também fazem tudo para preservar o poder. Ou seja, é um brasileiro típico.
 
Mas a camisa amarela o transformou. Pediu logo uma cerveja com o rótulo de um ano em que o Brasil foi campeão, mesmo preferindo outra marca, e avisou que vai torcer; aquela derrota que assombrou a nação —  e deixou o netinho, então com cinco anos de idade, inconsolável —  ficou para trás, como tudo há de ficar.

Voltando ao samba do Ary Barroso, resta saber se o amigo fará como o folião mamado e chumbado que, passada a Florisbela e a folia, pegou a “camisa amarela, e botou fogo nela”. Vai depender do nosso onze.

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