Brasília-DF,
21/OUT/2018

Crônica da semana: A partilha do papagaio

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Paulo Pestana Publicação:22/06/2018 06:00
Toda noite quando chegava em casa ele era recebido pelo papagaio, aos brados: —  Chegou o cachaceiro! Pinguço!

Se sentia um personagem de piada; e reclamava para os companheiros da hoje ex-mulher, que havia ensinado o pássaro a repetir sempre as mesmas frases, inclusive com o tom exclamativo, quando ele chegava à noite. O pior é que o papagaio estava certo; nosso amigo estava bebendo demais, a ponto de a dona do boteco tomar-lhe as chaves do carro.

Conselhos dos amigos, todos apreciadores de umas doses —  com moderação —  de nada adiantavam. Ele não tinha nenhum problema que precisasse ser embebido em gim, nada para afogar e que alterasse a vida de aposentado com salário integral da função que ocupou no banco. Nem os filhos davam trabalho. Bebia porque gostava. Mas gostava muito.

A única irritação era o papagaio, sentimento que foi se tornando incontrolável, até virar um ódio obsessivo —  o bicho passou a ser considerado um inimigo. Ele tentava pequenas vinganças, cometidas antes de sair de casa, quando esvaziava a tigela de sementes de girassol e secava o recipiente da água.

Ainda assim, a voz esganiçada do papagaio o perseguia e ele lembrava da ave com olhos rútilos e esbugalhados e penas eriçadas:

—  Chegou o cachaceiro! Pinguço!

Os amigos faziam troça: “O papagaio é protegido por lei, igual índio. E fala. Vai voar até o Ibama e te denunciar”. Não gostava das brincadeiras, para ele era assunto sério. Mas não denunciava porque, afinal, a megera era a mãe dos filhos. E, além de tudo, fazia a comida dele, que confessava medo de ser envenenado.

Já não conversava mais. Parou de comentar as notícias do telejornal e deixou de olhar até para o futebol. Só reagia às piadas de papagaio, cada vez mais frequentes, como a do sujeito que trazia um papagaio no ombro, quando foi perguntado: “O animal fala?”. Quem respondeu foi o papagaio: “Fala. E eu também!”. Não ria e, ainda, reclamava.

Alguém lembrou a história do papagaio que xingava o dono todo dia. Como vingança, foi jogado no freezer por alguns minutos e, quando libertado, assustado, pediu perdão pelo linguajar, dizendo que nunca mais iria xingar. Antes mesmo de ocupar o lugar no poleiro, perguntou:

—  Só por curiosidade, me diga: o que foi que o frango fez? —  e ele ficava sério.
 
O casamento fez água. Mais de 30 anos de convivência chegaram ao fim: a mulher alegou que não aguentava a bebedeira. Ele ainda tentou dar um jeito na situação, mesmo porque não queria sair de perto dos companheiros. Não estava preparado para deixar a casa próxima ao boteco que fiava e onde tinha carona.

A mulher não apenas estava irredutível como endurecia na partilha dos bens. Já passado dos 70, ele não se perturbava com o drama: “Já encomendei um caixão sem gavetas para não levar nada para o andar de baixo”, dizia. Não queria nada, mas recomendou ao advogado, nosso colega de mesa. “Só não abro mão de ficar com o papagaio”.
 
Ninguém entendeu nada.

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