Brasília-DF,
19/NOV/2018

Crônica da semana: Novos milionários

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Paulo Pestana Publicação:27/07/2018 06:06Atualização:26/07/2018 18:05
Tem coisa que não se pode perder. Uma delas é ônibus em Brasília; nunca se sabe quando é que vai passar outro. Outra é bolão de botequim. As apostas coletivas são uma tradição tão arraigada no brasileiro que até a Caixa se rendeu e passou a fornecer um volante para cada apostador, já com o prêmio (oxalá!) separado.

Não dá nem para imaginar os companheiros de copo e papo ficando ricos e alguém da roda, principalmente se for eu, fora do rateio — o pesadelo recorrente é ver a vítima, na maior pindaíba, esperando que um novo milionário tenha a sensibilidade de pagar um Dreher para, ao menos, espantar o frio.
 
É por isso que é lei: se é para fazer bolão, que todos participem. Normalmente, o pessoal espera juntar um prêmio maior para fazer a fé; ninguém tem dinheiro sobrando, mas prêmios de poucos milhões não atiçam a imaginação que borbulha assim que é entregue o volante preenchido com os números que um iluminado escolheu.
 
Com a queda da confiança no jogo do bicho, devido à introdução das máquinas de aposta no lugar do velho talão —  onde era registrado o honesto lema "vale o que está escrito", mais valioso do que o “in God we trust” das notas de dólar —  só nos resta a aposta estatal na hora de tentar a sorte. Ou quase.
 
Foi o que aconteceu recentemente no bar da Baixinha, No Grao, quando soubemos que, depois de tantas e infrutíferas tentativas, faturamos um prêmio. Era uma rabeira, acho que um terno num jogo de quina, que rendeu a cada um a fortuna de R$ 68,30 —  isso a partir de uma aposta de R$ 50 por cabeça.
 
O lucro de R$ 18,30 não vira a cabeça de ninguém. Não dá para uma dose de uísque 12 anos nem paga uma porção de frango a passarinho, mas, ainda assim, há certa emoção em ganhar. O bafejo da sorte faz bem, mesmo quando em pequenas doses. E ninguém ali sonhava em virar um Miron, o quase mítico e banguela ganhador da loteca que ficou rico e soube preservar a dinheirama, ou um Dudu, que perdeu tudo; portanto, brindamos à fortuna que sorria. O pessoal da mesa ao lado, perdedores, desdenhava da quantia, dizendo que era um desperdício de sorte. Nem ligamos.
 
Ir à lotérica e buscar, em vez de deixar, um dinheirinho também dá uma sensação de superioridade sobre as demais pessoas que estão ali na fila, muitas para pagar a conta de luz, outros para fazer sua fezinha. A mocinha do caixa abre um sorriso e ainda tenta seduzir o felizardo ganhador de R$ 68,30: "Vamos fazer mais um joguinho agora? Aproveite a sorte".
 
Delicadamente, recusei. Sigo o exemplo do meu avô, que ganhou na loteria federal duas vezes e no bicho em incontáveis semanas, dizia que não se deve jogar o dinheiro ganho no jogo; gaste com outra coisa e jogue com outras notas, ensinava.
Pois o dinheiro foi muito bem aplicado: paguei o pendura de outro dia.

Aspas
“E ninguém ali sonhava em virar um Miron, o quase mítico e banguela ganhador da loteca que ficou rico e soube preservar a dinheirama, ou um Dudu, que perdeu tudo; portanto, brindamos à fortuna que sorria”

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