Brasília-DF,
16/JUN/2019

Crônica da semana: Escorpião no choro

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Paulo Pestana Publicação:17/08/2018 06:00Atualização:16/08/2018 15:53
Caserna não combina com boemia. As noites de riso solto e música contrastam com a disciplina e rigor dos quartéis; quando cessa o violão, o clarim anuncia um novo dia. E vamos convir que dobrados marciais —  ainda que sejam clássicos de John Philip Souza —  não se comparam a uma roda de choro.

Ainda assim, fardados e cumprindo obrigações matinais, há militares que exibem mais destreza em instrumentos musicais do que para desmontar e montar um FAL, o fuzil automático leve. Talvez seja o caso do nosso personagem.
Livre das obrigações diárias, na reserva, o coronel passou a se dedicar mais ao violão de sete cordas que, na juventude, acompanhava os irmãos em serestas, nas frias noites gaúchas do Alegrete. Hoje, sem patente militar, manteve parte do nome de guerra: Índio.
 
E empolga a plebe quando, ao estilo das big bands, se levanta para executar o solo. Ele pode ser visto e ouvido nas tardes-noites de domingo na roda do No Grao, o bar da Baixinha, localizado no último comércio do canteiro central do Lago Norte. Aos 86 anos, é quem segura os afoitos, fazendo a marcação, mas com espaço para aplaudidos solos.
 
Mas dia desses, Índio foi convidado para participar de uma festa para celebrar a Peixaria do Deraldo, antigo e finado ponto musical da cidade, palco para grandes músicos, como o flautista Carlos Poyares, que se misturavam a diletantes em tardes de samba e choro. A peixaria não existe mais, mas botecos próximos abrigam os músicos e tudo ia muito bem, quando Índio levantou-se de repente; houve quem pensasse que era hora de mais um solo arrebatador. Mas ele sentiu uma picada; desconfiou de algum marimbondo, mas vieram mais duas em seguida e logo foi descoberto o autor: um escorpião amarelo.
 
É o peçonhento que mais causa acidentes no Brasil, tem veneno neurotóxico que intensifica a dor e se espalha rapidamente pelo corpo. Pode matar e pode provocar hiperestesia, ou seja: dói tudo, até piscar o olho. Está tudo bem com Índio. Passou uma noite no hospital, repousou e tomou analgésicos por uns dias, mas domingo que vem estará de volta. Certamente vai olhar bem onde sentar. E pode ser até que toque a paródia feita pelo filho, o músico Marcio Faraco —  radicado na França, onde já gravou oito álbuns —  usando a melodia de Sitio do Pica-Pau Amarelo, de Gilberto Gil, para aliviar as dores do pai. Diz a letra: “Era um fim de semana/Foi tocar numa cabana/Universo paralelo/Índio e o escorpião amarelo/Índio e o escorpião amarelo/Foi pior que dor de dente/Dor que não tem quem aguente/Dizem que é o pior flagelo/Índio e o escorpião amarelo/Índio e o escorpião amarelo/O bicho saiu contente/E o pai inconsciente/O sol nascente é tão belo/Nélson no hospital de chinelo/Nélson no hospital de chinelo/A coral, preta e vermelha/Água-viva transparente/De qualquer cor é cogumelo/Bicho que picou o pai, amarelo/Bicho que picou o pai, amarelo”.

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