Brasília-DF,
17/DEZ/2018

Crônica da semana: A cidade dança

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Paulo Pestana Publicação:14/09/2018 06:01
Toda cidade tem seu balé característico: podem ser os faróis dos carros dançando, a revoada de pássaros que colore os finais de tarde e inícios de manhãs, o balançar do arvoredo no vendaval que precede a tempestade ou as luzes dos televisores que vazam pelas janelas dos blocos de apartamentos.

Mas há um baile que só pode ser observado em lugar de grande fluxo de gente. Aqui em Brasília não há muitos espaços assim, além de algumas quadras da W3 Sul, da rodoviária e da passagem entre o Conic e o Conjunto Nacional. Mas, na avenida comercial de Taguatinga o baile acontece todo dia, a partir das pessoas que vão e vêm.
 
A senhora que ia para o norte inclinou-se levemente para a direita; o rapaz que ia para o sul desviou para a esquerda. Os dois pararam um em frente ao outro e ficaram buscando passagem cada vez em um canto —  por coincidência acabavam sempre um em frente ao outro, até que a senhora sorriu, parou, pôs a mão no ombro do rapaz e o conduziu.
 
Certamente, nunca haviam se visto, não sabem os respectivos nomes, mas deixaram a cena felizes como quem acaba de dançar a música favorita. O rapaz ainda deu uma olhada sobre o ombro, ainda sorrindo. Não foram os únicos a bailar, numa festa que vale até dançar homem com homem e mulher com mulher, ao contrário da música do Tim Maia.
 
Casais involuntários se sucederam naquela passagem movimentada, onde também havia muitos dançarinos solitários, todos de fone de ouvido — que antigamente chamávamos de egoísta —  ligado no celular e andando provavelmente no ritmo das músicas, já que eram passos acompanhados de leves flexões nos joelhos e balançar de cabeça.
 
Esses elementos do baile são perigosos, são como postes em movimento. Azar de quem vem pela frente. Também há perigo nos sons que aparecem de surpresa, atrapalhando a cacofonia natural dos carros, locutores de lojas e pessoas conversando.
 
Quando passou o carro com alto-falante anunciando que amolava faca e consertava panela, a moça e a senhorinha se viraram por causa do susto e quase se atropelaram — saíram pedindo desculpas mútuas. Pior foi o rapaz que, literalmente, abraçou o poste que ele não viu.
 
É época de política e logo apareceu um candidato, talvez um cabo eleitoral, não ficou claro para quem estava vendo toda a cena da janela do carro. O homem se colocava na frente das pessoas, tentava uma conversa e oferecia-se para colar uma praguinha — aqueles adesivos com o nome do postulante — na roupa do incauto transeunte.
 
Um pouco atrás, outro homem segurava uma caixinha de som de onde saía um jingle enjoado prometendo tudo aquilo que a gente sabe de cor e duas mocinhas tentavam distribuir um santinho de pecador. A maioria das pessoas passava direto, no máximo pegava um papel e seguia apressada, num outro gênero de balé.
 
A manhã estava terminando, os passos parecem ficar mais rápidos, talvez movidos pela fome. Mas, aí a dança é bem diferente.

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