Brasília-DF,
14/NOV/2018

Crônica da semana: O vilão da hora

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Paulo Pestana Publicação:19/10/2018 06:00
Racionalmente, a gente sabe que tudo na vida é questão aritmética —  o passar dos anos, inclusive. Mas, depois de determinada idade, parece que o relógio corre mais rápido que a folhinha amarela, mais cedo, e fazer aniversário passa a ser contagem regressiva. A vida deixa de ser uma conta de mais; vira uma operação de menos.

Otimistas, nos recusamos a fazer da festa uma antecipação do inexorável velório, assoprando velas como uma simbologia do tempo que apaga a existência pouco a pouco —  o que, convenhamos, não merece celebração alguma.

O pessimista acredita que a gente morre um pouco a cada dia. É a mórbida sensação que vem à cabeça ao ler o cada vez mais farto noticiário sobre nutrição; é só abrir o jornal: vamos ver o que está fazendo mal esta semana.
Deve-se evitar frituras, carne vermelha, alimentos baseados em soja, queijos, doces e, dependendo da pesquisa que se estiver lendo, até arroz e feijão.

Anos atrás a gente até ouvia falar de bebês que só podiam tomar leite de cabra; hoje a intolerância à lactose é uma coqueluche —  aliás, doença conhecida pelo matuto como tosse comprida e, antanho, sinônimo das modas do momento.

Circula pela internet um vídeo de um senhor defendendo a integridade e a honestidade do tão aviltado ovo. Segundo o palestrante, é o segundo alimento mais completo, atrás apenas do leite materno. E mais: é anti-inflamatório, diminui índices de insulina e até emagrece, porque aumenta a quantidade do hormônio conhecido como diponectina.

Pior é a perseguição ao pão. E ao macarrão. E, principalmente, à cerveja. Há alguns anos começaram a aumentar as letrinhas nas embalagens com a informação de que o alimento contém ou não glúten, que é o vilão do momento, encontrado em grãos como trigo, centeio, cevada e aveia — portanto, na cerveja.

Os nutricionistas recomendam que mesmo quem não tenha manifestado reação ao glúten, evite. Alertam para o fato de que dois milhões de brasileiros sofrem da doença celíaca, que provoca diarreia crônica, dores, desnutrição e vômitos; dizem que outros milhões têm níveis diferentes de intolerância, ainda que não saibam.

E o que vamos dizer na hora da reza quando pedimos o pão nosso de cada dia? Temos que agradecer ao fabricante de cerveja por nos fazer o favor de substituir quase a metade da cevada por milho, mesmo sem avisar nada no rótulo? Como faço para reclamar da minha mãe por ter me obrigado a comer toneladas de aveia Quaker quando menino? Não tem alguma coisa estranha quando tanta gente começa a sentir o mesmo sintoma ao comer um alimento que é base da humanidade há milênios?

Desde os romanos, pão é a tradução de comida; mas não há problema em trocá-lo por tapioca (embora as tapiocas industrializadas contenham farinha de trigo e, portanto, glúten). Não vou sentir falta de pizza ou de macarrão. Mas eu me recuso a tomar cerveja de chocolate ou de banana —  não me parece coisa de gente civilizada. Vou continuar me arriscando, mesmo que tenha de ir mais vezes ao banheiro.

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