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17/AGO/2019

Crônica da semana: Haja coração

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Paulo Pestana Publicação:09/11/2018 06:00
Fazia tempo que não ia ao bar do Luizão, um trabalho que exigiu muito mais do que o horário habitual que a gente reserva ao batente me afastou das coisas boas da vida por mais de três meses. E, aí, a gente vê que não adianta ler jornal, ver o noticiário da tevê e nem prestar atenção no rádio: as notícias importantes a gente não fica sabendo.

Antes mesmo do Francinaldo trazer a primeira Brahma, fico sabendo que o doutor João Bosco teve de abrir o peito para colocar três ou quatro stents — as notícias nos botequins pecam pela precisão, dependendo da hora em que se chega.

Um exame mostrou que estava tudo entupido, mas já está bem, em casa, se recuperando e certamente planejando a volta.

Stents são uns tubinhos, normalmente de metal, que servem para prevenir ou evitar a obstrução das artérias, garantindo o fluxo sanguíneo. No bar do Luizão é difícil encontrar alguém que não tenha pelo menos uma dessas geringonças, mas que ninguém culpe a comida ali servida — especialmente o charuto de repolho.

Doutor João Bosco Marinho é médico, mas não exerce mais a profissão, embora muita gente confunda sua mesa com um consultório e insista em pedir uma opinião sobre qualquer manchinha na pele ou uma olheira mais insistente.

Ele não nega, mas hoje se dedica em tempo integral à filosofia; é daqueles que ficam inventando frases — que ele chama de pensamentos —, aforismos e poesias — de vez em quando faz música também.

Calcula ter entre 30 mil a 40 mil pensamentos, alguns muito sérios, outros mais gaiatos que, selecionados, foram até publicados em livro. As frases surgem de repente, como quando ele tentava em vão lembrar o nome de um remédio para preencher a receita — “minha memória é uma adúltera, vive me traindo”, disse.

Hoje elevado à nobreza, é o Marquês de Sabugi, e tem sempre uma expressão que trouxe da Paraíba, talvez, ouvida num dos discursos que ouvia na época de eleição e que ele guarda em detalhes na memória. Ou, então, dos ensinamentos do padre marista José Coutinho, que o orientou para cuidar dos pobres e a quem credita o título de santo.

E não se esquece as origens, declamando: “Com os olhos de criança, a correr me vejo então/ Pelas calçadas quebradas, queimando os pés no teu chão/ De calças curtas e rasgadas/ Naquela infância vadia/ Felicidade existia / E eu a tocava com as mãos”.

“Amizade sem limite descamba para intriga sem fim”, disse ele ao recomendar alguma parcimônia nas relações pessoais. Outra que ele gosta de repetir é: “Não acredite no amor de quem não consegue amar a si mesmo”. Mas na sala de cirurgia ele, certamente, se lembrou de outra de suas frases: “Os anos desgastam o organismo, mas não danificam a alma”.

De qualquer modo, mais uns dias ele certamente estará de volta ao convívio dos amigos, provavelmente com uma quadrinha nova para render homenagens à sua musa dos dias de hoje, a tenista Maria Sharapova. E, com o coração renovado, ninguém o segura.

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