Brasília-DF,
12/NOV/2019

Crônica da semana: Feita em casa

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Paulo Pestana Publicação:23/11/2018 06:00
Essa moçada de barba hirsuta e cabelo raspado do lado acha que inventou o mundo e que o que veio antes era só para preparar o momento de glória deles, hoje, agora, neste minutinho. Dia desses, num desses botecos que parecem boutique, pedi uma Serra Malte para refrescar as ideias, quando o rapaz que estava ao lado deu um sorrisinho-tisque, aquela risadinha que vem com trilha sonora: tisque —  uma reprovação. Foi um julgamento sumário.

Para mostrar sabedoria, ele virou-se para o garçom e pediu uma dessas cervejas com bula (vem uma espécie de manual pendurado no gargalo, com recomendações ao bebedor). As garrafas chegaram ao mesmo tempo; mas eu já estava completando o segundo copo e ele ainda rodava o líquido, olhava o copo —  que mais parecia uma taça —  de baixo para cima, procurando a luminosidade da lâmpada fluorescente.

Em seguida reclamou da temperatura da cerveja e pôs-se a falar maravilhas do conteúdo —  antes de beber! Nesses dias só evito falar de política, o resto eu topo. E puxei uma tentativa de assunto com o sabe-tudo, que me deu uma aula sobre os benefícios das cervejas artesanais que, segundo ele, eram a melhor novidade do momento.

Eu preferi não dizer que se faz cerveja há milhares de anos. E que houve um tempo, não muito distante, em que se fazia tudo em casa, de linguiça à birra. A primeira notícia que eu tive de cerveja feita em casa foi a da minha avó, mas a pouca idade me impediu de provar — ela fazia também gengibirra, um refrigerante de gengibre, e envasava em garrafas de cerveja.

A meninada sentia-se importante, o que melhorava se pudéssemos ter também um maço de cigarros de chocolate Pan, que trazia um menino sorrindo na capa com um “cigarro” entre os dedos. Éramos quase adultos. Hoje a política correta manda que a tubaína venha em garrafa plástica e chocolate só em barra mesmo.

Nunca provei a birra da dona Mercedes, mas os relatos dos mais velhos garantem que não perdi grande coisa. Talvez por isso não tenha tanto encantamento por essas cervejas artesanais. Mas a vida está aí para nos contrariar todo dia.

E uma cerveja feita por quem gosta muito de cerveja não pode dar errado. E foi assim que provamos uma stout criada pela Kelly Matozinho, que durante a semana dá expediente entre computadores e nas folgas toma sua breja, ouve rock pesado e torce pelo Atlético Mineiro. E agora cria cervejas.

A última fornada foi especial, feita a partir de cevada não maltada torrada, o que dá uma coloração escura e amargor mediano. É uma variação que surgiu como uma esperteza, para burlar os impostos cobrados sobre o malte de cevada, mas acabou criando um clássico mundial, a cerveja Guiness, a stout mais famosa do mundo.

Há muitas variações de stout, dezenas delas. Ainda não consegui detalhes da receita da Kelly, que ganhou até um rótulo: Galo Bier. Mas o importante é que mais uma vez eu fui desmentido. Pena que acabou.
Tags: crônica

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