Brasília-DF,
19/NOV/2019

Crônica da semana: Goodbye, português

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Paulo Pestana Publicação:30/11/2018 06:00
Telefone móvel para mim é um mistério. Mal sei fazer uma ligação ou mandar uma mensagem; e ainda passo muito tempo me irritando com a moça da loja que acha que eu devo trocar o filtro de água a cada 15 dias. Mas estava tentando fazer alguma coisa mais avançada — que eu já esqueci — quando me deparei com um novo verbo: favoritar.

Ainda não sei como conjugá-lo; talvez a Dad Squarisi possa ajudar. Vamos ao presente do indicativo: Eu favorito, tu favoritas, ele favorita... parei por aqui porque vai piorar. O novo verbo entra na galeria onde brilham inicializar, todo o gerundismo e ainda tem ranquear no sentido de classificar e atachar no sentido de anexar. E muitas outras.

Sim, favoritar é o mesmo que pôr entre os favoritos, para ficar mais fácil de achar. Dia desse um amigo implicou com o noticiário sobre o jogador assassinado no Paraná. “Porque ele foi morto no after party e não depois da festa?”, perguntava ele, apoplético, ao William Bonner, que já lia outra notícia. A sorte é que o bar estava vazio; poderiam achar que ele estava realmente querendo falar com a televisão.

Mas a indignação se justifica. Já abandonamos algumas palavras da última flor do Lácio para substituí-las por estrangeirismos, caso de tíquete, aportuguesamento de ticket, que entrou no lugar de bilhete — que, aliás, vem do francês. Pior é o caso de cerquilha, que ninguém nunca soube o que era, substituída por hashtag, que todo mundo sabe o que é, embora poucos saibam para que serve.

Ninguém mais nos convida para um cafezinho ou um intervalo, principalmente durante uma reunião de executivos, que inventaram o coffee break — na verdade, uma horinha para fazer xixi. E quem ainda tem um animal de estimação? Bicho agora é pet, embora muita gente confunda com garrafa plástica, chamada pet porque é a sigla de politereftalato de etileno. Voltando aos bichos, pelo menos a origem da palavra é latina, pittinus, que virou petit em francês e petty em inglês, tudo significando pequeno. E, mesmo que seja um dog alemão, imenso, é um pet.

Mas não adianta reclamar. Antes o cinema e a música roubaram a influência que a língua portuguesa sofria do francês — tudo elegante tinha que ser dito na língua de Vitor Hugo e Totò —  porque se alguém queria ser moderno, tinha que se render ao inglês, que agora ganhou o reforço da informática e sua redutiva praticidade, com um vocabulário adaptado.

É o caso de delete, original do latim, afrancesada para delere e aportuguesada como delével (que se pode apagar); e agora virou delete, com conjugação e tudo. Uma língua viva está sujeita a influências, desde que usada com parcimônia.

Hollydays

Agora que passou o halloween, o thanksgiving day e o black friday, estou esperando que acabem com o Natal para transformá-lo em Christmas Day. Depois é só esperar o independence day no 4 de julho e o Columbus day em outubro. Pensando bem, acho que já passou da hora de construir aquele muro.
Tags: crônica

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