Brasília-DF,
15/NOV/2019

Crônica da semana: Na máquina do tempo

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Paulo Pestana Publicação:07/12/2018 06:00
Foi como um episódio daquele velho seriado Túnel do tempo, em que dois cientistas mergulhavam em aventuras no passado, mas na verdade ninguém precisou entrar na máquina ainda mais antiga, criada por H. G. Wells em 1895. Também não havia morlocks. Era apenas uma sala repleta de gente fazendo uma doce viagem pelos primeiros anos boêmios de Brasília.

Ao lado dos candangos que pegaram no pesado e construíram a nova capital, vieram também as cigarras, que adoçam a vida. Se o trabalho era árduo naqueles primeiros anos, a diversão era farta, tanto para diminuir a saudade da terra natal quanto para servir de alento para o dia seguinte de trabalho, tão duro quanto o anterior.

A maioria das pessoas presentes não tinha a menor noção do que esses cantores representaram na vida forjada na poeira e já havia música no ambiente quando o anfitrião convidou para se apresentar um dos primeiros seresteiros da cidade, Raimundo Moura.

A voz firme e os traços indígenas escondem a idade de quem embalou muitos romances da jovem cidade que se formava ao redor, tocando por todo canto. Fez sucesso na Tendinha, no Tabu, no Amore Mio, entre dezenas de outros bares que não existem mais. Ia além do palco, desfilando pelas mesas, dedicando canções exclusivas para cada um dos casais presentes, com o adicional talento de não fazer fuxico: o que acontecia ali, ficava ali.

O repertório é basicamente o mesmo há anos, com muitas canções de Evaldo Gouveia e Jair Amorim, outras buscadas entre os sucessos de Francisco Alves, Silvio Caldas e Nelson Gonçalves. Amores, dramas, pequenas alegrias na voz, com a segurança de quem já fez aquilo incontáveis vezes, mas com a capacidade de renovar a emoção.

Em seguida apareceu Harry Jones, nome que o advogado Jesiel Motta escolheu para se apresentar no palco, primeiramente fazendo mímica para vozes de outros cantores na incipiente tevê, depois usando a própria voz. Se o advogado fez carreira em Brasília, Harry Jones correu o mundo fazendo espetáculos em transatlânticos.

Canções populares italianas, francesas e norte-americanas formaram o repertório da noite, algo improvisado, até porque Jesiel não se apresenta mais em público. A diabetes fez com que ele praticamente perdesse a visão — tem apenas 10% no olho esquerdo, vê apenas vultos —  mas mantém a mesma vontade de viver, o que pode ser atestado pela jovem namorada que o acompanhava.

Fernando Lopes seria a próxima atração da noite, sem o sombrero que o acompanhou em muitas das apresentações dos primeiros anos da cidade, mas com a voz intacta aos 86 anos, fazendo com que os boleros tomassem corpo diante da audiência. E ainda houve a presença de Tião Rodrigues, que comandava o principal conjunto de bailes da cidade, o Squema Seis, dando uma canja só para mostrar que a categoria é a mesma.

Não há dúvida: a verdadeira máquina do tempo é a música, capaz de nos transportar para outras realidades; e a plateia de viajantes se encantava a cada canção, certamente mais jovens do que quando chegaram. Cada um se reencontrando consigo mesmo.

Tags: crônica

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