Brasília-DF,
20/MAI/2019

Crônica da semana: Folhinha virada

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Paulo Pestana Publicação:04/01/2019 06:01
Começou. O ano já tem quatro dias —  “como o tempo passa!”, vão exclamar os fatalistas; são 96 horas de ano-novo, de promessa de futuro, de sensações novidadeiras que seguem o calendário gregoriano. Há quem jogue búzios, outros preferem confiar nas órbitas de planetas e estrelas ou nas folhas de chá que restam no fundo da xícara. Linhas das mãos, cartas, fumaça, números, mentes desacordadas, tudo pode anunciar presságios.

Há quem lide com os dias vindouros de forma diferente. Doutor Maurício, por exemplo. Ele explicou sua teoria no bar, ainda sob os eflúvios do ano que se encerrava e de alguns goles a mais: “Para mim, não existe futuro, o que há é o benvirá”.  Antes que alguém fizesse confusão com algum ramo da língua tupi, ele explicou que a palavra ainda não está nos dicionários, mas ele acredita que será uma contribuição importante.

A palavra pode até não existir, mas está entre nós pelo menos desde 1973, quando Geraldo Vandré lançou Das Terras de Benvirá, o quinto e último disco dele. Era para ter sido a retomada da carreira —  o artista ainda estava exilado na França, em 1970, quando gravou as oito faixas —,  mas foi um período tão tumultuado que selou a carreira do cantor. Durante a gravação, ele e amigos chegaram a ser presos por posse de haxixe.

A canção que deu título ao disco não é das mais otimistas. Termina assim: “que faço agora, Maria/ que faço agora diz já/ de longe que eu ouço hoje/ as coisas que vão voltar/ em ti em ti e comigo/ agora no Deus dará /das coisas de todo mundo/ na vida do bendirá”. A versão do Doutor Maurício para o vocábulo não tem nada a ver com essa desesperança.

Ao contrário. Ele nem conhecia a música de Vandré —  embora seja fã de Disparada e Pra não dizer que não falei de flores. Benvirá, para ele, é um sinal de esperança, de um futuro que só trará coisas boas, que se anuncia como uma renovação, uma vacina anticeticismo. E gastou o latim para anunciar a boa-nova.

Estava falando para gente calejada, que já viu viradas de ano demais para se impressionar com o que diz a folhinha. Ainda assim, empolgou a minúscula plateia simplesmente por não deixar o por vir sem controle, por conta própria —  para ele, é preciso fazer acontecer. Vandré falou disso também.

O fato é que temos 361 dias pela frente, antes que novamente estejamos nos felicitando, desejando mais um ano bom, felicidade e sorte. São 8.664 horas à disposição de cada um de nós, antes que a Terra complete mais uma voltinha em torno do Sol. O que quer dizer que é hora de batalhar um pouco para que os votos dos amigos possam virar realidade.

Ou então fazer igual ao Ceará, que depois de ouvir as palavras cheias de esperança do doutor Maurício, vaticinou: “Não sei vocês, mas eu vou ficar bem atento para ver se o ano-velho acabou mesmo à meia-noite”.

Tags: crônica

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