Brasília-DF,
19/NOV/2019

Crônica da semana: Contra o tempo

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Paulo Pestana Publicação:01/02/2019 06:00
Já faz algum tempo que a notícia saiu — e nos apressados dias de hoje, uma nota fica velha em 15 minutos, se tanto —,  mas ela não sai da cabeça do Ceará. Dizia a informação que um holandês entrou na justiça para reduzir a idade em 20 anos; no dia 11 de março, ele quer completar 50 anos e não os 70 que o teimoso calendário insiste em marcar.

Na verdade, foi uma provocação. O querelante é uma espécie de guru positivista da TV holandesa e atacou o preconceito contra os mais velhos, com uma pergunta dos nossos tempos: “Você pode mudar seu nome, seu gênero, por que não sua idade?”

Mas o Ceará — sujeito culto, advogado — levou a sério e, desde que soube do fato, parece não ter outro assunto. Volta e meia tenta recolocar o tema para deliberação na mesa do bar, que parece ser o único lugar do mundo com mais instâncias que o judiciário brasileiro. É assim em todo boteco: os assuntos vão e voltam, votos são mudados de acordo com o rótulo da cerveja e não há sentença que se imponha.

Dias atrás, o assunto voltou. Com a retórica de tribuno, defendeu o candidato a Dorian Grey com uma veemência que provocou desconfiança. “Ele tem razão: a idade é repressora, impede a liberdade de ação, fecha portas”, dizia num tom melancólico.

Antes que alguém voltasse a dizer que é a lei da vida, que ficar velho é melhor que a alternativa ou qualquer contra-argumento já gasto, soubemos a triste realidade.

Algum fofoqueiro soprou que Ceará tinha fracassado na sua mais recente tentativa amorosa; a moça que ele vinha tentando conquistar encerrou qualquer esperança ao aparecer com um noivo que ninguém nunca tinha ouvido falar. As más línguas dizem que a moça queria sossego, cansada das investidas do nosso amigo e arrumou um anel.

Inconformado, encontrou na diferença de idade o fator determinante para a rejeição, mesmo diante de tantos amigos com namoradas e esposas jovens. Ninguém falou nada novo diante do exposto — o assunto realmente já tinha rendido horas de resenha.

Há quem pinte cabelo, faça horas de ginástica, use roupas da moda ou fale gírias que só os netos entendem, mas ninguém vence o deus Cronos.

O monólogo foi interrompido pela passagem de uma graciosa mocinha de seus vinte e poucos anos pela calçada. Os rapazes da mesa —  sim, ela tinha o poder de rejuvenescer aqueles vetustos senhores —  apenas observaram a moça flutuar. Foi quando Ceará quebrou o silêncio e se levantou:

—   Vou pegar o telefone dela.

Semana passada...

...Estava falando sobre o Índio Sete Cordas e a engenhoca que dispensa o uso de fio na eletrificação de seu violão quando fui interrompido. Faltou a conclusão do texto, que segue: O andar de Índio Sete Cordas deu um novo impulso à roda. Não chega a ser um Chuck Berry, mas tem levantado a plateia, ao sentir a vibração que vem do instrumento e do músico, que remoçou uns 40 anos. Ele descobriu a fonte da juventude.

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