Brasília-DF,
17/NOV/2019

Crônica da semana: Sempre nas últimas

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Paulo Pestana Publicação:15/02/2019 06:00Atualização:14/02/2019 10:19

O mundo tem pressa; o movimento de rotação do planeta não foi alterado, mas as 24 horas do dia parecem passar bem mais rápido que há poucos anos. Mesmo que ninguém tenha a menor ideia de onde quer chegar, não dá para perder tempo; e Maurição levanta uma questão séria: "Quando foi que um segundo virou uma eternidade?"

 

Ele acompanhava o noticiário do dia com a mesma impressão que nós, outros, à mesa: estamos todos atrasados como o coelho de Lewis Carroll, não importa o que esteja acontecendo. As novidades não duram mais que 15 minutos; é o tempo de serem engolidas por outras... novidades.

 

Tempos atrás, as notícias tinham hora para serem divulgadas, como acontecia nos primeiros anos de Brasília, quando sistema de alto-falantes interrompia uma rumba de Perez Prado ou um bolero de Anísio Silva para dar as últimas notícias na Cidade Livre, o acampamento que virou Núcleo Bandeirante.

 

Era uma tradição brasileira; foi num sistema parecido, em Juazeiro, que João Gilberto aprendeu as canções de Dorival Caymmi, entre uma e outra. Toda cidade do interior tinha algo parecido: a rua parava na hora do noticiário.

 

Agora, não há mais um minuto sem novidade, principalmente para quem vai ao bar do Lula, na Asa Norte. Não precisa de rádio, nem tevê; e quem quer fugir da correria para apreciar uma cervejinha restauradora ou um uísque revigorante é melhor evitar o recinto.

 

Desde que ganhou um telefone novo da filha, o velho Marcos —  bancário aposentado, advogado bissexto —  descobriu a vocação de espíquer. Era assim, partindo do anglicismo speaker, que eram chamados os antigos locutores do rádio.

 

E Marcos incorporou um deles, ainda que não seja um cavalo confiável — num terreiro de qualidade não chegaria a pangaré e só receberia entidades de meia tigela. Entre o vacilante e o tartamudo, capricha na entonação.

 

Navegando pelos sítios de notícia, faz questão de dividir com o resto de nós —  e provavelmente com os fregueses da mercearia vizinha, tal o volume da voz empostada — todas as informações. Não há filtro: desde o último boletim médico do presidente internado até os movimentos dos participantes do Big Brother, ele informa tudo com um sentido de urgência que interrompe qualquer assunto, mesmo os mais relevantes, como os fuxicos.

 

Semana passada, entre as notícias que vinham da tragédia criminosa do vestiário do Flamengo e os pacotes a serem votados pelo Congresso, ele revelou que a Nice desmaiou quando se encontrou com o pai de Luz. Ninguém tem prestado muita atenção no repórter osso —  apelido que Marcos ganhou desde que começou a perturbar —, mas a manchete aguçou a curiosidade, tanto que houve silêncio.

 

Precisamos do auxílio da Deise, que além de servir as mesas, é a responsável pelas frituras, para entender que ele estava falando de uma novela que ninguém ali vê, o que demonstra a inutilidade dessa profusão de notícias. Mas parece que até o Marcos desistiu; do apelido ele até riu, mas não gostou nada de ser chamado de "o cara que está sempre nas últimas". 

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