Brasília-DF,
22/JUL/2019

Crônica da semana: Uma vida na tela

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Paulo Pestana Publicação:05/04/2019 06:00
Os espectadores do finado Cine Atlântida – hoje um tempo de igreja neopentecostal – estavam entretidos com a decisão de um diretor de presídio que, para mudar o sistema brutal de corrupção do sistema prisional, se passou por um prisioneiro. Baseado num fato real, não é um filme ruim, muito menos chato – e ainda tem Robert Redford!

Mas no meio da projeção um jovem se levantou e pôs-se a gritar impropérios contra o filme As Grades do Inferno - Brubaker. “Vocês são uns idiotas de assistir a um filme como este, que não nos diz nada”, berrava aos amigos que o acompanhavam e também para quem não conhecia. Era um protesto, mas também uma diversão naqueles tempos punk.

O filme seria indicado ao Oscar de melhor roteiro original, mas isso não abalou as convicções do jovem Renato Russo. Nem isso, nem o bônus adicional de irritar amigos que estavam com ele. Estranho foi ele ter concordado em ver um filme como aquele; o teatro do protesto devia estar pronto antes de sair de casa para constranger os amigos.

O roqueiro gostava de outros tipos de filmes. A relação de Renato Russo com o cinema está sendo esmiuçada em uma imensa mostra em cartaz no Cine Brasília, criada pelo indefesso programador Zé Damata, não por coincidência, um dos heróis de Renato e talvez a única pessoa no mundo capaz de ler essa face do legionário.

Damata era o programador do Cine Cultura Inglesa quanto Renato, ainda Manfredini, dava aulas. E dava palpite na programação. Era um frequentador assíduo, até porque Damata caminhava na contramão dos grandes cinemas, enfrentava Maria Santana, e abastecia as cabeças brasiliense em tempos pré-locadoras de vídeo.

A Mônica que queria ver o filme de Godard é a única referência explícita do cinema nas letras de Russo, mas o cinema é onipresente, até porque é parte importante da formação intelectual do roqueiro. Ele gostava de ver filmes, mas também gostava de conversar sobre eles, trocar impressões em conversas que, naquele tempo, ele não podia ter com os companheiros de eletricidade.

Muitos dos filmes separados por Damata são musicais, alguns importantes como Quadrophenia, até agora inédito na tela grande, e Gimme Shelter. Mas houve o esquecimento de um filme adorado por Russo, Wattstax, o Woodstock dos artistas negros da exploitation, que ele viu no Cine Cultura, até porque não deve ser fácil de achar nem nesses tempos digitais. E faltou principalmente Sympathy for the Devil, que junta Rolling Stones e Jean-Luc Godard, duas paixões do roqueiro.

O fato é que seria impossível juntar todos os filmes que ele gostava, ou pelo menos respeitava o suficiente para discutir com alguém por horas a fio. De alguma forma, a mostra é também uma homenagem a uma Brasília que não existe mais, ou até a um mundo que anda meio burrinho.

P.S. – É preciso registrar que esta croniquinha foi escrita na base da pressão. Zé Damata ligou e deu um ultimato: “Escreve ou...”. Preferi não ouvir o resto. Com cangaceiro baiano a gente não brinca.   

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