Brasília-DF,
22/MAI/2019

Crônica da semana: O poeta e a cobiça

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Paulo Pestana Publicação:26/04/2019 06:00
Os vândalos foram um dos mais violentos e destruidores povos na época do império romano. Como godos, visigodos, ostrogodos e suevos, desceram da Escandinávia para barbarizar e só foram vencidos pelos hunos, ainda mais bárbaros. Essa história tem mais de 1.500 anos, mas alguns deles ainda estão por aí.

Há alguns dias eles atacaram a estátua de Noel Rosa, no Rio de Janeiro. Psicólogos costumam dizer que vândalos modernos têm desvio de personalidade, que retiram prazer da destruição do patrimônio dos outros, o que equivale dizer que, ao contrário dos ladrões, podem ser classificados como inimigos do alheio.

São pessoas que descartam regras sociais, desconsideram decência, ordem e que muitas vezes se juntam em bandos, como no caso das torcidas organizadas de futebol, replicando as hordas que infernizaram os romanos entre os séculos 4 e 5.

Mas o que Noel Rosa tem com isso? A estátua em que ele aparecia sentado à mesa e servido por um garçom, remetendo a uma de suas músicas mais conhecidas — Conversa de botequim —  é de bronze. Foi vítima da conjunção barbárie/cobiça que atrai bilontras, velhacos e finórios até a cemitérios, pelo metal eril.

Noel foi um dos principais renovadores da canção brasileira, ao incorporar a linguagem cotidiana à música popular, lixando o verbo empolado e incompreensível, como em Adda, valsa de Mário Ramos e Salvador Morais, que Augusto Calheiros gravou, certamente sem saber o que era “casto fanal”, como registra Renato Vivacqua em seu próximo livro, a ser lançado.

Ao lado de Ismael Silva — a quem Noel chegou a dedicar o samba Mulato bamba, que insinuava a homossexualidade do amigo (“As morenas do lugar, vivem a se lamentar, por saber que ele não quer, se apaixonar por mulher”) —,  ele era direto. “Não tenho herdeiros, não possuo um só vintém/Eu vivi devendo a todos, mas não paguei ninguém”, cantou no epitáfio Fita amarela.

Satírico, lírico, romântico, grosseiro, irreverente, vários estilos aparecem nas letras dos 259 sambas que Noel deixou em seus 26 anos de idade — ele compôs por sete anos, o que dá a espantosa média de 37 músicas por ano. Eram temas que passaram por sua vida, como um cronista que esbarra naquelas situações e as transforma em música.

Convivem o homem amargo que não disfarça rejeições e o gaiato que dá volta por cima. Banca o leiloeiro em Quem dá mais?, “por uma mulata que é diplomada, em matéria de samba e de batucada... fiteira, vaidosa e muito mentirosa?”. Mas também escreveu que “sofrer foi o prazer que Deus me deu, eu sei sofrer sem reclamar” (Eu sei sofrer) e dá de ombros em Mais um samba popular (“Fiz um poema pra te dar, cheio de rimas que acabei de musicar, se por capricho não quiseres aceitar, tenho que jogar no lixo mais um samba popular”).

Em Riso de criança, ele juntou os dois: “Eu nascendo pobre e feio, ia ser triste o meu fim, mas crescendo, a bossa veio, Deus teve pena de mim”.

Os ladrões queriam bronze, mas Noel é ouro.

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