Brasília-DF,
21/NOV/2019

Crônica da semana: As cinzas na sala

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Paulo Pestana Publicação:24/05/2019 06:00
As fotos que ela mostrava a poucos não mentiam, assim como os depoimentos de quem a havia conhecido na tenra juventude: era linda. Quando chegou a Brasília, há pouco mais de 40 anos, já não chamava tanta atenção, mas trazia uma outra beleza e uma alegria igualmente infecciosas, que derramava em crônicas sobre programas da tevê, sob pseudônimo.

É impossível lembrar dela com tristeza, mesmo depois da morte, ainda recente. Não teve vida fácil, mas lutou com a força que só o otimismo dá; quase foi derrotada depois da morte do filho, mas soube segurar as pontas. Quem a encontrava na mesa do bar não enxergava a tristeza que ela escondia atrás da risada larga e doce.

Assídua e fiel frequentadora do tradicional boteco, não precisava pedir nada ao sentar-se: os garçons chegavam a disputar para ver quem abriria a noite com “um coisinha e um coisão”, que vinham a ser, pela ordem, uma dose de Steihagen e um chope. Bebia-os separadamente, degustando, recusando a fórmula do submarino.

Grande ouvinte, tinha sempre um caso para contar —  acompanhado de uma gargalhada. Mas ninguém pode dizer que foi surpreendido com a morte dela, que vinha definhando a olhos vistos e não tinha mais o semblante guerreiro de antes. Os amigos foram em peso para se despedir e atender a seu último pedido. Quis ser cremada.

E assim foi feito. Terminada a cerimônia no crematório de Luziânia, amigos decidiram que as cinzas seriam deixadas na mesma árvore que recebeu os restos do filho —  se encontrariam em São Jorge, na entrada da Chapada dos Veadeiros. Não tinha sido um pedido dela, mas os amigos acharam que ela gostaria.

Um parêntesis: ela adorava piadas sobre goianos, nem sempre muito edificantes; no mínimo está se divertindo com o fato de virar pó numa cidade de Goiás e ser espalhada por outra.

Um saquinho com as cinzas foi entregue e colocado num recipiente de vidro, mas faltava quem o levasse para o outro lado do quadradinho do DF. Um amigo mais voluntarioso, morador do Lago Norte, caminho para a chapada, ofereceu-se para levar as cinzas. Esperaria outra amiga, que havia se responsabilizado em jogar os restos no lugar combinado.

Mas os dias foram passando e nada de alguém buscar os restos mortais. O amigo não tem medo de assombração e só acredita em superstição quando o Botafogo está em campo, mas isso não conta. Mesmo desconfiado, passou a conviver com a amiga sobre o aparador da sala.

Ali estão apenas cinzas, mas por mais que ela tenha sido um ser humano alegre, ninguém sabe o que acontece do outro lado e ele preferiu colocar a urna num lugar mais discreto, como se fantasma, ou espírito, vá lá, se detivesse por essas coisas. E sempre que recebia visita, fazia questão de apresentar as cinzas da amiga; apontava para o jarro e dizia: “Lá está ela. Arrolhada como o gênio da lâmpada”. Agora que a urna não está mais lá ele não faz mais piada. E chora a solidão.

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