Brasília-DF,
15/SET/2019

Crônica da semana: Tudo menos isso

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Paulo Pestana Publicação:28/06/2019 06:00
Os gregos começaram essa orgia ao misturar vinho com mel, mas o negócio tomou corpo em 1860, quando foi publicado o primeiro livro de receitas — todas com pelo menos um tipo de licor na mistura. E o mundo inteiro passou a criar seus drinques.

O Brasil não ficou para trás e começou a produzir suas próprias variações; certamente a mais conhecida é a caipirinha, mas também temos batidinhas e o inefável leite-de-onça, que mistura pinga, coco e leite condensado para produzir a mais monumental dor de cabeça que o ser humano é capaz de suportar.

Mas nada se compara ao quentão. Tem algo errado numa bebida que precisa ser aquecida para ser ingerida e não é chá. Para fazer quentão, o cidadão mistura cachaça, limão, gengibre, mel, cravinho da índia, canela e açúcar e bota para ferver. E há quem beba!

Aliás, há um comparativo: o vinho quente. É praticamente uma salada de frutas (com abacaxi, uva, laranja e maçã) misturada com canela e cravinhos da índia e colocada num vinho — o mais vagabundo que se encontra no supermercado — que é fervido. 

Em comum, as duas beberagens são servidas nas festas juninas e é praticamente uma ofensa não aceitar, até porque invariavelmente vêm acompanhada da frase: “Faz bem à saúde”. E este tem sido um dos motivos de ninguém me encontrar numa festa junina há anos; outro dia fui parar numa delas, mas com a garantia de que não teria quentão.

Mas há sempre um amanhã, como cantava Tito Madi. E naquela noite o Faixa chegou ao bar carregando uma garrafa térmica. Ele não é gaúcho nem tem cuia de chimarrão, café requentado tem no boteco e não chegamos ainda na fase de tomar leitinho quente com bolacha. Mas não houve mistério. 

Logo anunciou que tinha passado numa festinha e comprou o quentão para nos oferecer. Para piorar a situação trouxe um pacote com quitutes juninos: minipamonhas, broa e forminhas de curau. Só melhorou a situação quando ele disse que queria trazer também porções de mungunzá, que o sulista chama de canjica e o maranhense de chá de burro, mas não deu.

Quem aprecia uma bebidinha não se dá muito bem com essas especialidades que vêm do milho. A mistura é terrível. Mesmo sabendo que o suco gástrico é capaz de derreter metais e rochas como o mármore, o encontro deles no estômago nunca é pacífico. 

Os copos que estavam na mesa continham uísque, conhaque e até pinga; bebidas nobres, respeitáveis. Do lado, ainda havia restos de pele de frango frita. Houve um entreolhar coletivo que trazia um veredito unânime: ninguém ia chegar perto daquele quentão. Inconformado com a reação, o Faixa apelou: “Pessoal, faz bem à saúde”. 

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