Brasília-DF,
23/AGO/2019

Crônica da semana: Nas batucadas da vida

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Paulo Pestana Publicação:19/07/2019 06:02Atualização:18/07/2019 12:28
- Não se faz mais samba como antigamente... O alto-falante tocava Luz Negra na voz de Elizeth Cardoso, quando nosso amigo soltou a frase em tom de lamento. Ele pegou um exemplo duro de ser superado; esse samba é de uma arrasadora e trágica beleza, podia ser assinado por Shakespeare ou Amado Batista. Não foi à toa que Cazuza a regravou com tempero blues.

Mas a frase deu o que pensar. Não é o caso desse samba, construído sobre as notas do peculiar e inimitável violão de Nelson Cavaquinho — com uma letra que ninguém sabe ao certo se é de Amâncio Cardoso ou Irani Barros — mas a qualidade do que se faz hoje pode estar ligada à ausência de dois instrumentos fundamentais que praticamente não existem mais; não pelo menos com a qualidade de antanho.

São eles, a caixinha de fósforos e o chapéu de palhinha. Grandes páginas do samba foram escritas sobre o ritmo extraído desses prosaicos objetos de uso pessoal.

O introdutor da caixinha de fósforo e do chapéu de palhinha na música brasileira foi Luís Barbosa, também pioneiro do samba de breque, mas que morreu cedo demais, aos 28 anos, vítima de tuberculose.

Foi a doença, aliás, a responsável pelos novos instrumentos; Luís Barbosa tocava pandeiro de tarracha, muito pesado, e à medida que o mal avançou, o substituiu pelo chapéu Ramenzoni; entre amigos, batucava na caixinha de fósforos. No filme Alô Alô Carnaval está a única cena em que ele aparece em ação, cantando Seu Libório. 

Outros seguiram a tendência. Vassourinha, cantor talentoso e morto aos 19 anos, e Dilermando Pinheiro também se notabilizaram pela batucada na palhinha. Mas o chapéu saiu de moda, a fábrica Ramenzoni foi implodida e hoje só se usa boné, que não dá para batucar.

A invenção do isqueiro descartável e as campanhas antitabagismo foram outros duros golpes no velho samba. E não dá para fazer samba com isqueiro. Para piorar, as caixas de fósforo passaram a ser de papelão, o que abafa o som e desanda o ritmo.

O inglês John Walker, que inventou o palito de fósforo em 1827, não poderia imaginar que iria parar na história do samba. O expoente do instrumento foi Ciro Monteiro, introdutor do samba sincopado que tocava o instrumento com indisfarçável orgulho. Mas são incontáveis os compositores que usaram a caixinha para marcar o ritmo quando mostravam uma canção.

Elton Medeiros não gosta quando alguém diz que ele compõe batucando palitos, mas se apresenta com o, digamos, utensílio. Adoniran Barbosa, ao contrário, não se importava quando alguém ligasse os fósforos às suas composições, embora na verdade ele compusesse seus sambas caminhando, sem necessidade de marcar o ritmo. O baiano Batatinha e o paulista Oswaldinho da Cuíca não largavam a caixinha.

Hoje, os músicos são bem formados, dá gosto de ouvir o bandolim de Victor Angeleas e o cavaquinho de Márcio Marinho, para ficar em dois jovens brasilienses. Mas pode ser que ainda haja lugar para um chapéu de palhinha e uma caixinha de fósforos bem tocados.

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