Brasília-DF,
19/OUT/2019

Crônica da semana: O melhor amigo

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Paulo Pestana Publicação:26/07/2019 06:00
Não sei quem disse que o cachorro é o melhor amigo do homem, mas deve ter razão. Tem muita gente trocando a companhia de humano por um cão que, aliás, vai deixando de ser animal irracional para assumir uma inteligência que certamente é maior que a do dono. Mas nem sempre foi assim, e a língua não nos desmente.

Cachorro é sinônimo de pulha, biltre, calhorda, safado, sem-vergonha, jagodes — essa está meio em desuso, mas é uma maneira sensacional de definir alguém desprezível e de mal aspecto —, patife, moleque, ordinário e até bandalafumenga, que é um desses adjetivos imprestáveis, porque além de pouca gente saber do que se trata, é difícil de pronunciar na hora da raiva.

Fica claro que nossos antepassados não gostavam de cães como nós. No meu tempo de menino, cachorro comia o resto da comida que sobrava do almoço; no máximo, se fosse muito querido, ganhava um osso. Com sorte, ficava com sobras e sebos da carne depois que a peça era limpa, algumas vezes cozida e misturada no arroz de terceira.

Hoje é possível encontrar mais variedade de ração para cachorro do que, por exemplo, marcas de feijão. A primeira ração conhecida é do final dos anos 1800, mas foi depois da primeira guerra mundial que —aproveitando a carne dos cavalos mortos no conflito — começaram a fazer sucesso. 

Foi publicado em algum lugar que mais de metade das residências do Distrito Federal tem algum animal de estimação — que no português de hoje chamam de pet — com maioria canina. Usando a mesma base de dados, verifica-se que há mais cachorros que flamenguistas no DF (sendo que os últimos fazem muito mais barulho). 

Há quem crie raças imensas em apartamentos minúsculos, quem tenha miúdos ranzinzas em mansões enormes, quem converse com cachorro como se fosse confidente ou analista — até porque, como esses, não oferecem respostas. Lojas com produtos para a bicharada são cada vez maiores, com estoque mais variado; há especialistas em passear, adestrar, lavar e escovar o cão e agora tem até lavanderia só para coisas caninas.

Mas a surpresa é ver que existem pessoas que levam seus cachorros para o boteco. E eles não ficam mais ao lado da mesa, como convinha. A tarde já tinha caído, quando o rapaz chegou acompanhado de um cãozinho barbudo que, depois vim a saber, é da raça schnauzer, e o convidou a subir na cadeira ao lado.

Não satisfeito, o cachorro colocou as patas sobre a mesa e sentou-se, enquanto o rapaz pedia uma porção de frango a passarinho e uma cerveja. Não parecia uma relação de dono; era uma camaradagem. O rapaz conversava com o bicho naturalmente, como se fosse a coisa mais normal do planeta, até porque o cão parecia prestar atenção a cada palavra.

Aquilo pareceu incomodar o Carneiro, um sujeito que não honra o sobrenome e se mexia na cadeira, sem tirar o olho da cena. Até que não se aguentou: “Se ele pedir um copo pro cachorro, eu chamo a polícia”.

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