Brasília-DF,
19/OUT/2019

Crônica da semana: Traduções perdidas

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Paulo Pestana Publicação:02/08/2019 06:00
Tudo começou com um cafuné. Ou melhor, antes que me entendam mal: com a tentativa de traduzir o significado de cafuné para o inglês. Na falta de palavras, o gesto quebrou o galho, mas, ainda assim, ficou faltando explicar aquela sensação de quem recebe o carinho.

É mais ou menos o que acontece quando se tenta explicar o que é saudade. Não é apenas sentir falta; há uma melancolia envolvida, impossível de ser traduzida ou explicada.

Há outras palavras que são exclusivas de seus povos ou até mais específicas. “Tudo aquilo que o malandro pronuncia, com voz macia, é brasileiro, já passou de português”, ensinou Noel Rosa no samba Não tem tradução. Não sei se o rapaz entendeu a explicação, mas não importa: a calva avançada mostrava que ele nunca experimentaria um bom cafuné.

O bar é uma babel. Há quem demonize esse tipo de estabelecimento, acreditando que são antros de gente à toa, que está ali por não ter o que fazer de útil ou para fugir de situações domésticas mais complicadas, sem saber que culturas diversas são trocadas à beira do balcão ou nas mesas.

Não há quem saia do boteco sem uma informação nova. Só num bar bem frequentado o sujeito ficará sabendo, por exemplo, que uma barata pode sobreviver por três semanas sem a cabeça. Ou que os homens, que não conheceram os dinossauros, conviveram com mamutes. E que existe um vírus — o ATCV-1, que deve estar se espalhando pelo Brasil — transmitido pela água e causa estupidez.

Foi também num boteco que fiquei sabendo que um caracol tem mais dentes que um tubarão — claro que fui conferir; esses moluscos podem ter de 12 mil a 20 mil dentes. E experimentei uma certa apreensão pelos escargots à Bourgnone ingeridos. E graças à vasta sabedoria de um causídico soube que, se um chinês quiser reencarnar, deve antes preencher formulários para quatro órgãos do governo. Informações vitais, como se vê.

Tem sempre novidade. Era uma tarde-noite de reencontros num boteco à beira-mar, semana passada, quando o garçom trouxe uma nova rodada de chope para substituir os copos quase vazios e foi subitamente interrompido por um dos comensais. “Você não vai querer levar nossos norgerls, não é?”, perguntou.

Eu achei que eram nuggets, mas o único petisco que havia ali era uma porção de amendoins murchos. O amigo poliglota tomou o último gole do chope, já quente e sem efervescência, estalou os lábios e exclamou vitorioso: “Agora sim, norgerl ingerido, eu aceito outro”.

Descendente de alemães, ele pôs-se a explicar que norgerl é uma dessas palavras germânicas — como frühjahrsmüdigkeit, ohrwurm e backpfeifengesicht — que não são traduzíveis. E é usada apenas para definir o restinho de bebida — quase intragável — que fica nos copos. Ou, traduzindo: é quando a campanha contra o desperdício vence o mau gosto.

Em tempo: Frühjahrsmüdigkeit é aquela sensação desanimada que antecede uma nova temporada, ohrwurm define músicas que não saem da cabeça e backpfeifengesicht é o sujeito que merece levar um cacete. Esse último adjetivo faz falta em português.

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