Brasília-DF,
20/NOV/2019

Crônica da semana: Entre lama e pulgas

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Paulo Pestana Publicação:09/08/2019 06:00
Tem gente que gosta das letras, dos livros. Mas o que o livreiro Jorge Brito ama de verdade são as páginas — e quanto mais amareladas, melhor. Há anos ele trocou a gerência do seu Armazém do Livro Usado, na 403 Norte, hoje tocado pelo filho, para se tornar um garimpeiro das letras.

Jorge trocou o Ceará por Brasília em 1979 e tem se especializado em comprar bibliotecas inteiras, algumas de autoridades, algumas de gente comum; e fuçar no que as pessoas guardaram, anotaram, fotografaram.

Herdeiro nunca sabe o que tem realmente valor, e Jorge sabe que as pepitas aparecem no que parece lixo; e guarda, principalmente se tiver relação com a história de Brasília.

Recentemente, encontrou uma carta anônima de 30 de janeiro de 1961, em que o missivista narra sua estada no Hotel Aquino, do Núcleo Bandeirante, que viraria cinzas um ano depois.

O cicerone diz que é um dos melhores da Cidade Livre. Mas a propaganda não surtiu efeito. Escreve o hóspede: “O aspecto desagrada. É um vasto casarão de madeira, de construção ordinária, sem caprichos de acabamento. O beiral de zinco, amarfanhado e já corroído de ferrugem, denuncia logo o emprego de material velho de segunda ou terceira mão”.

“As janelas, quadradas e pequeninas, de uma única folha de madeira, quando fechadas vedam por completo a entrada de ar e luz; em compensação, se abertas, servem para entrar chuva. Que alguém, estando do lado de fora, possa espiar dentro dos quartos”.

“A fachada encosta diretamente da lama da rua. De sua cor primitiva, azul-escuro, mal se vê estreita faixa na parte superior — o resto desaparece sob os chapiscos de lama que as rodas dos caminhões arremessam continuamente. Há outros hotéis, talvez de melhor aparência (concorda o cicerone, desolado), mas este é o mais familiar”.

Não foi a mais agradável das noites do nosso anônimo hóspede, que reconhece os donos do estabelecimento que liam o Correio Braziliense na recepção, e descreve com minúcias os fatos que antecederam a dormida.

“De qualquer forma, o banho, gelado, dá uma ilusão de limpeza. Resta cair na cama e esperar por um soninho reparador... Se a roupa de cama atende a confortos de higiene pouco importa: sob a luz mortiça de uma lâmpada a tremelicar por falta de voltagem, ninguém distingue branco de bege, qualquer roupa de cama serve...”

“O mal são as pulgas: começa num coçar sem fim, por todas as partes do corpo. As pulgas atacam nos lugares mais difíceis, obrigando a ginásticas incríveis de contorcionismos...

Coçar sobre a terceira vértebra cervical não é sopa!”

“Também certos ruídos atrapalham, choferes de caminhão, estacionados junto ao tabique externo do quarto se divertem contando piadas e rindo alto... Uns pândegos! De quando em quando um caminhão, encostando de marcha à ré, acontece bater no tabique, que estala, afunda, ameaça desabar...”

Jorge Brito tem recolhido relatos como esse que contam a história não oficial de Brasília no que famílias acreditam ser lixo. Só falta ele arrumar os alfarrábios.

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