Brasília-DF,
19/OUT/2019

Crônica da semana: Urubus malandros

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Paulo Pestana Publicação:16/08/2019 06:00
Pássaros migram. Essa era a única explicação que o meu amigo tinha para o repentino sumiço dos inquilinos alados que insistiam em tomar conta da cobertura do apartamento dele, no Sudoeste — e sujar. Nem escondia a alegria; voltou a convidar a namorada para tomar um vinho sem ser surpreendido com imundícies ou voos rasantes sobre a cabeça.

Foram três anos de sossego. Mas eles voltaram. Justamente no momento que o Fluminense, time do coração do amigo, luta para se livrar da zona de rebaixamento do Brasileiro, os urubus refizeram o pouso no mesmo local. Parece provocação.

Urubus são os lixeiros do mundo animal; limpam carcaças deixadas no campo e nas cidades, contribuindo para evitar a disseminação de doenças. Por este motivo, são protegidos pela lei; quem matar se arrisca a pegar até um ano de prisão. Tinham tudo para serem simpáticos mas, como o doutor Cesare Lombroso diagnosticou, somos preconceituosos, e a aparência não ajuda.

Foi exatamente a possibilidade de puxar uma cana que fez com que o amigo não tomasse atitude mais drástica contra a turma que, afinal, pertence à família dos condores. A estirpe nobre, no entanto, não aplacava a ira, aumentada a cada excremento recolhido, a cada susto.
Tentou armas não letais, inclusive um aparelho ultrassom que o vendedor garantiu que espantava de barata a coruja. Mas aqueles urubus não se intimidaram: ou eram surdos ou encaravam qualquer coisa para degustar os quitutes que o vizinho deixava. Sim, era o morador do lado quem atraia os pássaros.

O inconveniente deixava restos de carcaça de frango para apodrecer no telhado e urubu pode ser feio, mas não é bobo. Faziam evoluções pelo céu, criando um perímetro sobre o bloco e pousavam suavemente sobre a mureta para beliscar o lanche. Na hora de se render às necessidades fisiológicas, voavam para cobertura ao lado.

Numa das investidas, meu amigo se armou de um bodoque — atiradeira, baladeira, estilingue, funda, o instrumento tem vários nomes, mas uma única função.

Com uma bola de gude no courinho, disparou. Mas esqueceu-se de abrir a janela. Quebrou o vidro e aposentou-se da vida de atirador. Nos últimos dias, quem passa pelo Sudoeste pode desconfiar de que alguém está festejando alguma coisa durante o dia, tantos são os rojões ouvidos nas horas mais incomuns. Cachorros ficam se enfiando embaixo das camas, amedrontados com os foguetes extemporâneos. Os vizinhos não sabem mais o que pensar daquele rapaz distinto e sempre bem-vestido, que faz tanta festa sozinho.

Nos últimos dias foi visto numa casa de fogos, desolado. Queria algo mais potente porque aqueles foguetes de três tiros não estavam adiantando – ao contrário, ele já sonhava com os urubus bailando ao som dos rojões, como se zombassem dele.

Foi aconselhado a desistir, mas já tem novos planos: vai atacar a origem do problema. O vizinho que se prepare, porque as maquinações são as mais cruéis possíveis. Ele pensa: se constranger o vizinho, vai ser obrigado a se mudar. E com ele vão os restos de frango. E os urubus.

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