Brasília-DF,
19/OUT/2019

Crônica da semana: Prisioneiro

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Paulo Pestana Publicação:30/08/2019 06:00
Tem uma história relativamente conhecida do homem que liga para o dono do bar e pergunta a que horas ele vai abrir o estabelecimento. Depois de ouvir que só abriria bem mais tarde, o homem insiste até provocar uma reação irritada do bodegueiro, dizendo que não vai abrir o bar mais cedo só porque ele quer entrar. Até que o homem esclarece: – Não até piada temquero entrar, eu quero sair.

Até piada tem fundo de verdade. E foi o que ocorreu com o nosso amigo depois de um dia de expediente pesado, quando foi parar numa choperia do Sudoeste. É meio de caminho; fica entre o trabalho e a casa dele, agora morando em Águas Claras. É só ele entrar no carro e se sentir como um marinheiro no mar Tirreno.

Na mitologia grega, os marinheiros que passavam por aquelas águas mediterrâneas eram atraídos pelo canto de sereias, filhas do rei Aqueloo e da musa Melpômone e que, pelo menos segundo os versos de Homero, tinham visões do futuro. O canto era tão doce que os homens do mar se distraíam e acabavam batendo a embarcação nas rochas.

Brasília não tem mar, mas a tentação é grande. Há bares que seduzem o incauto, senão pelo canto, pelo chopinho em dobro, uma experimentação fora de hora, um petisco diferente. Outros nem se esforçam; e contam com a necessidade do freguês de dar uma paradinha entre o estresse do trabalho e o encontro com a patroa. É uma espécie de purgatório; e cada um que escolha seu inferno.

Mas nem era o caso. O amigo estava solitário, digerindo o fim de um relacionamento que ele brigou muito para dar certo, mas com armas erradas. Ele custou a entender que não adianta sentar à mesa com garfo e faca, se o prato é sopa.   

Não se deve beber para afogar mágoas, ensinam os mais experientes. O risco do exagero é grande. Melhor beber para festejar, comemorar — o sabor ressalta, o prazer dobra. Mas tem hora que não dá para segurar e, de alguma maneira, os sentidos precisam ser entorpecidos porque ninguém consegue conviver com os miolos a mil por hora.

E nosso amigo entrou nessa. Gregário, chamou alguns companheiros para a mesa, mas a noite foi ficando escura e fria, todos foram embora; passava um jogo vagabundo na tevê e foi a desculpa que ele usou para continuar. E as doses foram se avolumando.

Esses bares muito grandes têm essa inconveniência — ninguém acompanha a evolução do porre alheio. Num botequim, o dono é também um fiscal; e dependendo do estado, para de servir e ainda confisca a chave do carro. O amigo passou do ponto, dormiu na mesa e não houve meio de acordá-lo.

A solução foi arrastá-lo para dentro do estabelecimento; ninguém sabia o endereço para colocá-lo num táxi. As portas de ferro foram baixadas. Acordou no dia seguinte, amarfanhado, com gosto de cabo de guarda-chuva na boca e uma dor de cabeça monumental. E reclamou do serviço:

—  Que bar é esse que não tem colchonete?

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