Brasília-DF,
19/OUT/2019

Crônica da semana: O último bastião

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Paulo Pestana Publicação:04/10/2019 06:00
O melhor nos filmes de mafiosos não é quando tem um tiroteio no depósito de uísque e começa a vazar líquido dos barris. Muito menos quando os gângsteres saem em disparada naqueles sedans pretos para uma noite de terror. Nada bate o momento em que o chefão beija o rosto de um carcamano feioso, o condenando à morte. É a poesia a serviço da brutalidade.

O mundo anda um pouco assim, todo mundo querendo disfarçar, substituindo o beijo por palavras bonitas, para esconder situações que estão diante de todos e são as mesmas de sempre – sejam feias ou nem tanto. O politicamente correto venceu o primeiro assalto, mesmo que no fim do filme, o sujeito morra da mesma maneira.

Nosso novo companheiro de mesa e copo é desses. No início, achei que era para impressionar os comensais; afinal, é uma mesa seleta, na Asa Sul, com presença de advogados, médicos e servidores de alto coturno.

Mas noite dessas o neófito exagerou. A conversa era sobre o paradeiro do flanelinha que chegou a ficar nosso íntimo – inclusive com direto a palpites na conversa – e que anda sumido. Em certo ponto, disse que o rapaz era uma pessoa em situação de vulnerabilidade econômica. Assim mesmo.

O Faixa quase caiu da cadeira de plástico. “Aqui a gente chama essas pessoas de pobres mesmo. Isso não é defeito nem demérito. Encher a boca de palavras não vai melhorar a vida de ninguém”.

Tirante o rompante mal-humorado e que causou algum desconforto, demos razão a ele. Antigamente, o máximo a que se chegava era chamar o sujeito de humilde; agora um único adjetivo virou uma frase inteira.

O novato talvez quisesse demonstrar alguma polidez, mas não sabe que botequim é o lugar onde as coisas são chamadas pelo que são. Ali, baixinho é baixinho, quando não é chamado de anão ou pintor de rodapé; o sujeito alto é sempre um galalau, varapau ou espanador na lua, e feio é feio mesmo, nunca será um portador de distrofia estética ou visualmente desfavorável.

O botequim é o último bastião de enfrentamento ao politicamente correto. É onde não cabe hipocrisia. Pelo menos não muita. Ali se separam os homens dos meninos; e geralmente, esses homens viram meninos – com toda a maldade inerente aos petizes, especialmente na hora de bulir um com o outro, sem a menor piedade.

Chamar alguém de estúpido é perfeitamente normal. Estranho seria chamar de pessoa com deficiência intelectual. É onde um bêbado será sempre um chato, nunca uma pessoa quimicamente alterada. E onde um careca é chamado pelo que é, isso quando não vira aeroporto de mosquito.

O bar é um lugar onde não existe fato alternativo. Mentira é mentira mesmo, e tem seu valor reconhecido, principalmente na hora de esticar o caso. Mau humor só é permitido ao dono do estabelecimento. E foi assim que o Faixa teve liberdade para desabafar para um companheiro: “Você é uma pessoa portadora de perturbação nasal”. Ficou difícil de entender, mas ele providenciou uma tradução: “Seu fedorento!”

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