Brasília-DF,
18/NOV/2019

Crônica da semana: A busca pela perfeição

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Paulo Pestana Publicação:25/10/2019 06:00
Foi um cronista de verdade, Paulo Mendes Campos, quem escreveu que não existe bar perfeito. Mas na crônica Por Que Bebemos Tanto Assim?, ele listou cinco itens que garantiriam qualidades fundamentais de um boteco de respeito: circulação de ar, bons garçons, bodegueiro de personalidade, boa bebida e fregueses agradáveis. 

Longe de nós contestar especialistas, mas é preciso ponderar. Um bom botequim não precisa de tanto ar assim, ainda mais se for naqueles dias em que a gente troca o uísque por conhaque. Um pouco de bafo não atrapalha um bom papo.

Bom garçom, sim, é fundamento importante. Ainda que seja um sujeito mal-humorado como os garçons cariocas e parisienses, é preciso que seja competente como um mordomo inglês, tenha a discrição de um faxineiro de bordel e a paciência do personagem de Noel Rosa no samba Conversa de Botequim. E que seja generoso na hora do choro, aquele tantinho a mais de cada dose.

O mesmo se aplica ao proprietário. Ninguém deve esperar ser bem tratado num bar, afinal não é um consultório, embora se preste para terapia. Deve-se relevar alguma malcriação do taberneiro, normalmente brutalizado pela convivência com o cliente folgado ou que bebe demais — quando não são a mesma pessoa. O que se pede dele é eficiência. E banheiro limpo.

O líquido que entra precisa sair. E o cronista não lembrou a importância do recinto adjacente ao bar, que merece tratamento caprichado devido à mira deficiente — causada por pernas cambaleantes ou mãos trêmulas — de alguns frequentadores. Em alguns banheiros não se pode entrar nem de galochas. 

A lista inclui uma boa bebida, que pode ser traduzida por garrafas honestas, sem batismo. Por melhores que sejam os atuais uísques falsificados, eles não resistem ao teste da caneta — deixe a bebida assentar e dê uma leve batida na garrafa com uma caneta. Depois, balance bem e bata novamente; se o barulho for diferente, mais grave, é sinal de que o produto é original; caso contrário, melhor providenciar uma cibalena.   

Mas a maioria dos uísques falsificados atualmente não usa mais aquela mistura misteriosa em que entram álcool zulu, iodo, catuaba selvagem e extrato de fumo de rolo, entre outras especiarias. Os uísques são falsificados com... uísque. O único senão é que não se trata da produção indicada pelo rótulo, mas de outra marca, mais barata.

No caso dos fregueses, o cronista tem inteira razão. Deveriam, inclusive, estar em primeiro lugar entre as qualidades, uma vez que não há aspirina que dê jeito em gente inconveniente. Uma boa mesa basta para fazer um bom bar, mesmo abafado, com garçom mais ou menos, dono relaxado ou bebida... não, melhor não mexer nessa categoria.

Há outros itens que contribuem para elevar a classificação do boteco, principalmente cadeiras, que devem ser confortáveis o suficiente para abrigar glúteos por longas horas, e mesas, que precisam estar sempre secas e limpas ainda que seja pelo pano sujinho. Mas para que tanta exigência? Num boteco só não se admite cerveja quente e gelo picado no copo.

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