Brasília-DF,
05/AGO/2020

Crônica da semana: Rir de quê?

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Paulo Pestana Publicação:10/01/2020 06:00
Saudade dos tempos em que as pessoas, quando não gostavam do espetáculo, jogavam ovos e tomates nos artistas. Hoje o negócio é na base da bomba. Não sou fã do tipo de humor que vem pela porta dos fundos, mas não acho que se combate piada ruim com pólvora e mau gosto com canhão. Vaia pode doer muito mais.

O humor grosseiro não é uma exclusividade dos tempos extremamente grosseiros que vivemos. O uso excessivo de palavrões — que vem desde Dercy Gonçalves, outra que não tinha graça nenhuma — e de outros recursos de baixo calão é a aposta no choque e não na graça ou na inteligência; sutileza é artigo em falta nesses dias.

Humor pode ser físico, como Charles Chaplin e Oscarito, caricato como Chico Anysio e Costinha, careteiro como Jerry Lewis e Grande Otello, irônico como Millôr Fernandes e Grouxo Marx, entre muitos outros tipos, inclusive o preconceituoso — mas o fundamental é que seja engraçado.  

Essa mixórdia que se vê hoje não tem nada disso. Não sei se nas cavernas o homem contava piadas, nem mesmo sei como nasceu a gargalhada, mas o humor teve dias melhores. Renato Vivacqua, que sabe tudo de música popular, mas também de outras bossas, me deu alguns livros que provam que o humor brasileiro já foi mais fino.

Musa Gaiata, editado em 1949, traz uma antologia da poesia cômica brasileira por Bastos Tigre e Renato Soldón. São excertos de poetas como Bilac, Belmiro Braga, Cláudio Manuel da Costa, que faziam rir e chorar. 

Como o cearense Abílio Martins que, ao ter notícia de que havia aparecido um galo com chifres, poetou: “Pois se a mulher o galo, infelizmente/ Foi sempre uma galinha/ a cabeça do boi era fatal/ Muito cuidado, camaradas, tomem:/ se a Natureza fez assim com o galo/ pode fazê-lo muito bem com o homem”.

Outro livro, Humour, de Afrânio Peixoto (1947), se apresenta como um breviário nacional do humorismo a partir de textos de Ruy Barbosa, Lima Barreto, Capistrano de Abreu, Aparício Torelli — este, comentando a tese de um sábio alemão de que o sorriso da Monalisa de Da Vinci era causado pela ausência de um dente incisivo superior. Conclusão do Barão de Itararé: “Era simplesmente uma jovem desdentada, que não abria a boca para não deixar à mostra o caquinho preso na gengiva”.

O terceiro livro é Pérolas..., de Agrippino Grieco (1939), que coleta e ironiza bobagens publicadas Brasil afora, antecipando o Febeapá (Festival de Besteira que Assola o País) de Stanislaw Ponte Preta. Como o deslize de Monteiro Lobato em Ideias de Jeca Tatu, ao escrever que “a caveira de Spencer estremeceu na cova”, sem se lembrar que o corpo do filósofo havia sido incinerado.  

Mas eram tempos em que para poder rir as pessoas precisavam saber alguma coisa além de mostrar os dentes. Hoje basta gritar, fazer uma careta, soltar um pum (sempre me perguntei: qual a graça de uma flatulência?) ou falar um palavrão bem cabeludo, que chamam de humor. Ainda assim, não merecem bomba.

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