Brasília-DF,
20/OUT/2017

Crônica: colunista debate a foto no mundo moderno

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Paulo Pestana Publicação:28/08/2015 06:00

Já fizeram as contas, mas eu não anotei: em um segundo, o mundo produz mais fotos que em... (por favor, leitor, preencha o espaço). E não importa o tempo que cada um escolheu: o que eu quero dizer é que a fotografia se banalizou.

O tal selfie é um espelho cujo reflexo está disponível para todos. E nós temos visto as coisas mais horríveis desde que a Linda Blair vomitou aquela gosma verde no cinema, três séculos atrás.


Para tentar botar ordem nessa crônica, é preciso entender que todo mundo se acha fotógrafo só pelo fato de ter telefone que registra instantâneos. Aí é um tal de fotografar (e filmar) saliência que eu não sei onde vai parar — aliás, sei; mas não quero estar lá.


Mas fotografia pode ser arte quando o olhar do artista acompanha todo o processo: conceito, objetivo, a imagem, composição, questões técnicas e, importante, a edição final. Uma grande foto depende da sorte — como, aliás, tudo na vida — mas o olhar na foto pronta é preponderante. É ali que o momento registrado é — uau! — revelado.


Máquinas que disparam fotos quase em movimento contínuo podem confundir; afinal, uma delas há de dar certo. Mas é neste instante que o fotógrafo se revela artista. Para entender essa verborragia toda, basta ir à Galeria Olho de Águia, em Taguatinga Norte. É lá que Débora Amorim mantém, até 19 de setembro, a exposição Gesto Natural.


Foi o fotojornalismo — literalmente, a escola mais bruta da informação — a forja da arte dessa moça, que quando deixa a câmara abraça um pandeiro com a delicada graça que o instrumento e o samba merecem. Mas aqui o ângulo é outro: arte dominando o flagrante.


Débora Amorim retrata vários big bangs. Não uma viagem pelas galáxias, mas o registro do nascimento de vários universos com o parto — palavra que obviamente não tem nada a ver com o verbo partir, posto que é uma chegada, mas com o vocábulo latino parere, dar à luz.


Famílias abriram sua intimidade para que os registros fossem feitos, apresentando uma sexualidade que não tem nada a ver com libido. As fotos revelam a dor e o êxtase que dividem aquele momento simultaneamente, mostrando, desde o início, porque é que a gente está no mundo.


Pessoinhas chegando, mães encantadas, pais bestificados — são momentos únicos registrados com sensibilidade e que mostram que, mesmo no tempo dos selfies, a arte se impõe.


(Sim, a Galeria Olho de Águia fica na QNF 1, Edifício Praiamar, Bloco D – Taguatinga Norte.)

Ainda a frase — O mundo anda muito efêmero, mas tem coisa que dura uma eternidade. A discussão pela paternidade da frase “o tempo esculpe ruínas”, citada em crônica da década passada, é uma delas. Carlos Henrique entra em contato para dizer que ouviu frase da boca do ex-governador paraibano Ernani Sátiro, quando avistou a moça mais bela de seus tempos de juventude, 40 anos depois. Luis Joca não se conforma e diz que Charles Preto garante que a frase é do poeta baiano. Eu não acredito; Charles Preto mente muito.

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