Brasília-DF,
20/OUT/2017

Sonhos que não envelhecem; confira as Crônicas da semana

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Paulo Pestana Publicação:19/12/2014 11:21

 (cícero/cronica/reprodução)
Henry jones tem a segurança dos artistas internacionais. Movimenta-se pelo palco improvisado - na verdade um espaço aberto, na linha do chão mesmo - e encara a plateia com simpatia, vestido num terno de largas ombreiras, gravata cheia de cores e calça justa.

O repertório é formado por canções italianas, clássicos de Sinatra e o que mais a turma pedir; praticamente o mesmo que ele cantava nos programas da TV Nacional, nos primeiros anos de Brasília. O sucesso é imediato e envolvente; casais levantam-se para dançar, outros aplaudem.


O bizarro é que Henry Jones começou a carreira dublando canções - sim, na impossibilidade de ter os grandes nomes internacionais, artistas locais faziam mímica, com a gravação original ao fundo. Eram os precursores daquele Pablo inventado pelo Silvio Santos (não confundir com o Pablo da sofrência, embora ambos sejam de lascar o cano).

É dessa época o nome anglofônico. O diretor da emissora gostava que os artistas se especializassem em determinado ritmo e, mais, queria criar uma nova personalidade para cada um. Foi assim que o carioca Jesiel Motta, que veio para Brasília adolescente, acompanhando a mãe enfermeira, ganhou o nome de Henry Jones - e com ele, cantando de verdade, correu o mundo.

Jesiel é advogado, consultor jurídico. Faz parte da primeira leva de artistas da nova capital, um pessoal que ajudou a dar alma à cidade de concreto e nem sempre é reconhecido. E entre um parecer e outro, ressuscita Henry Jones, para deleite da plateia.

Márcio Oliveira chegou mais recentemente a Brasília. Veio de Viçosa, Minas Gerais, faz amigos com facilidade, montou o Beco do Chopp, criou barriga e parecia estar sossegado entre suas tulipas quando começou a tocar guitarra numa banda senil - no sentido etário, não de sanidade - que tocava rocks de priscas eras. Era o RPC, sigla para um nome impublicável.

Pois não é que o Márcio resolveu avançar e, desprezando a calva, gravou um disco de músicas originais? Entre o tanque e os varais, ele instalou um computador, um teclado e plugou a guitarra na área de serviço de casa. E registrou, sozinho, 10 faixas que viraram um CD. Não são exatamente canções; são explorações sensoriais, que valorizam a proposta de colagem, com claras influências do rock progressivo e da ambient music de Brian Eno.

Aqui e ali ele joga com a surf music californiana, busca uma pegada mais formal com sotaque blues, mas sem perder a fluidez. As faixas têm, todas, nomes esquisitos - Toruk, Sopry, Unstrov - que não querem dizer nada, como se ele não quisesse influenciar o ouvinte com um título qualquer. Este disco, diz Márcio, é a preparação para um segundo que já está em produção - também no meio da roupa suja.

Jesiel e Márcio navegam em águas diferentes, mas mostram que a viagem da vida não tem porto de chegada. O desafio é manter o espírito livre e os sonhos intactos. É um recado para todas as pessoas que não acreditam na realização de sonhos e nas possibilidades que a vida oferece todos os dias.

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