Brasília-DF,
20/NOV/2018

Crônica: cronista fala sobre a liberdade de expressão em bares

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Paulo Pestana Publicação:31/07/2015 06:24Atualização:03/08/2015 11:47

Não há mais trégua. Nem mesmo no bar, antes reconhecido como território livre para a expressão de qualquer bobagem, ambiente de tolerância e respeito pela opinião alheia, onde as brigas só aconteciam por motivos fúteis. Que saudade dos motivos fúteis!


Jorge ferreira, criador de ótimos botecos, certa vez interveio numa conversa alheia ao ouvir de um dos frequentadores que ali não se discutia religião. E foi peremptório: “No meu bar pode-se discutir tudo, tem espaço para todo tipo de opinião”. Esses dias democráticos ficaram para trás. Há poucos dias, distraído, Tota sentou-se no lugarzinho de sempre, abriu o jornal e pediu:

 

– Por favor, uma Brahma. O rapaz estranhou; mesmo sem ter passado do estágio probatório para servir a mesa da diretoria, ele sabia que — entre as cervejas de linha — ele preferia uma Original ou uma Serra Malte, mais encorpadas. Não contestou e trouxe a Brahma assim mesmo. Devidamente acompanhada de uma abrideira e um torresmo.

 

Tota gosta de chegar antes dos companheiros para especular o ambiente, separar a mesa de sempre e, se precisar, limpar a área. O caldo só entornou com a chegada do Maurição – que não faz parte da diretoria; é um chato. Olhando para a mesa, disparou à queima-roupa:

 

– Agora não falta mais nada: virou petista – e saiu atirando impropérios e palavrões aos berros. Foi um ataque verborrágico que trazia a fúria dos injustiçados.

 

Tota tirou os óculos, deitou o jornal na mesa e ficou encarando Maurição (que, aliás, nem merece o aumentativo; é um catatau).

 

— ‘Tou vendo essa Brahma aí. É a cerveja do Lula, esbravejou.

 

Tota, como já foi dito, lê jornais. Estava ciente da acusação de que os empreiteiros presos tratam, segundo os delatores premiados, o ex-presidente por Brahma. Maurição, ignorante, grosso como papel de embrulhar prego, desconhece a mitologia hindu e acha que Brahma é só cerveja. No máximo, chope.

 

O paciente Tota ainda tentou levar na brincadeira:

 

— Quer uma tulipa?, perguntou — naturalmente brincando com a senha dos empreiteiros para a entrega da espórtula (sim, porque propina, no meu tempo, era só o ato de dar de beber a alguém).

 

Maurição deveria ter dado a contrassenha, caneco, mas trata-se de um ogro, não lê e muito menos brinca; parece ter perdido qualquer indício de humanidade nesses dias mal-humorados. E quis sair no braço. Foi detido pelo assovio em forma de apito do proprietário do estabelecimento que, ali, tem o poder de um inspetor de quarteirão da ditadura Vargas. E, piscando para Tota, fingiu reclamar:

 

– Maurição, pra bater boca e brigar nesse bar tem pelo menos que beber antes. Você tá muito sóbrio pra ficar perturbando meus clientes desse jeito.

 

Foi quando um gaiato, sentado mais atrás, disse:

 

— O problema do Maurição é que está faltando um pixuleco.

 

O bar, lotado, caiu na gargalhada, num raro momento de celebração comunitária que mereceu até brinde coletivo. Até o Maurição riu: pixuleco ele sabia o que era.

 

A paz voltou ao ambiente quando Maurição aceitou uma tulipa suada do Tota. Pelo menos até a próxima arenga.

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