Brasília-DF,
25/JUN/2018

Crônica: Marchinhas brasilienses

"Esculhambaram até a esculhambação"

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Publicação:05/02/2016 06:00
 Todos os anos, os artistas de Brasília rechearam o repertório de marchinhas com músicas próprias (Arquivo EM/D.A Press)
Todos os anos, os artistas de Brasília rechearam o repertório de marchinhas com músicas próprias


Está para começar o primeiro carnaval com toque de recolher da história. Não há mais pierrôs, colombinas, odaliscas; o ex-Pacotão prepara mais uma manifestação a favor do governo federal, quase uma antipasseata — ou seja, esculhambaram até a esculhambação.

Tem mais: as Escolas de Samba vão se concentrar, mas não vão sair, como aconteceu ano passado, porque não têm ajuda oficial; em compensação, os blocos de sujo estão limpinhos, lavados com patrocínio do governo, que, dono, muda até o endereço dos percursos e marca hora para a folia acabar. Viraram a página e esqueceram-se de nos avisar.
 
O carnaval da jovem capital nunca teve a pujança de outras cidades. Mas carregou a fundamental importância de fazer com que a cidade se integrasse ao resto do Brasil, mostrando que a mudança era para valer e que havia gente comum aqui. O que foi facilitado com a fundação da Aruc, formada por funcionários públicos cariocas ligados à Portela, e da primeira campeã, Alvorada em Ritmo, escola que não existe mais, em 1961.
 
A primeira chama de uma cultura com identidade brasiliense, aliás, surgiu nos bailes que eram promovidos nos clubes. Todos os anos, os artistas da cidade rechearam o repertório tradicional de marchinhas clássicas das orquestras com músicas próprias, criadas por compositores da cidade. E, como era carnaval, valia tudo.
 
Famoso por interpretar boleros e canções mexicanas em seus programas da Rádio e TV Nacional, Fernando Lopes não perdia o rebolado; tirava o sombrero, vestia uma camisa listrada e saía por aí. Não perdia um carnaval. Havia até um disputado concurso para escolher a melhor marchinha brasiliense do ano; independentemente do resultado, os cantores saíam de baile em baile nas noites de folia, levando as partituras e soltando a voz.
 
A disputa tinha muito de marmelada. Os artistas — especialmente Fernando Lopes e José Lourenço — simulavam uma rivalidade que excitava as fãs. Nas emissoras de rádio, provocavam-se mutuamente, sem que ninguém soubesse que era tudo combinado.
 
Iam juntos aos bailes, até porque José Lourenço, oficial de Justiça, era o único que tinha carro. Mas entravam em cena separadamente. Enquanto um cantava, o outro esperava no carro; depois as posições se invertiam. E seguiam para o próximo baile. Às vezes, Velam Costa e Glória Maria iam com eles defender outras canções.  As marchinhas — e alguns sambas — eram criadas por compositores da cidade, uma página nunca contada por quem se assanhou em mostrar a história não oficial da cidade. 
 
Eládio Viana, Lacy Viana, Rocha Matos e Lauro Passos eram presenças garantidas em todos os carnavais. Assim como Cid Magalhães, pseudônimo do desembargador Milton Sebastião Barbosa, que hoje dá nome ao prédio do fórum do Tribunal de Justiça do DF, autor de mais de 100 canções, entre boleros (Por uma noite ainda, gravado por Orlando Silva) e sambas (Brasília capital da esperança, registrada por Jorge Veiga). Muitas dessas músicas estão preservadas nos arquivos de Fernando Lopes. Fazem parte da história de uma cidade mais amistosa, menos intolerante; de uma época em que folia não era sinônimo de bandalheira.

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