Brasília-DF,
15/AGO/2018

Bocadim Festivalzim reúne nomes da nova geração, como Aíla e Johnny Hooker

Evento será realizado sexta e sábado na Funarte

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Adriana Izel Publicação:20/07/2018 06:07
Aíla é uma das atrações do evento (JFR/Divulgação)
Aíla é uma das atrações do evento

Sexta e sábado, a capital federal recebe mais uma edição do Bocadim Festivalzim LGBTQ+, no Complexo Cultural da Funarte (Eixo Monumental). Criado em 2014, o evento tem como objetivo representar as lutas da comunidade gay e promover um retrato plural de diversidade, com a presença de artistas que tenham um trabalho que dialogue com esse conceito.

A paraense Aíla, que se apresenta sábado (21), é uma dessas artistas. No mercado musical desde 2012 quando lançou o disco Trelelê, a cantora busca em seu trabalho “fazer refletir, cutucar, contra-atacar”. “Somos responsáveis pela construção de espaços de debates, de diálogos. Nossa arte precisa ser um sopro de resistência e liberdade”, afirma ao Correio.

Pela primeira vez em Brasília, Aíla traz o show da turnê Em cada verso um contra-ataque, que tem como base o álbum de mesmo título lançado em 2016. “Estamos circulando agora e vou tocar quase todas as músicas desse disco, vai ter Lesbigay, Rápido e vai ter lambada, vai ter rock”, garante a artista, que também confirma as músicas do primeiro CD, Proposta indecente, gravada com Dona Onete, e Todo mundo nasce artista.

Além de Aíla, o line-up do festival conta com Verônica Decide Morrer, Jaloo e Letrux, que se apresentam hoje e amanhã tem a presença do pernambucano Johnny Hooker. Nos dois dias, o Bocadim conta ainda com a Mostra Sêla de artistas femininas do DF, com DJs da cidade e shows da Quadrilha Desgovernada e do grupo Chinelo de Couro.
O evento ocorre hoje e amanhã, a partir das 18h. Ingressos, R$ 20 (meia) e R$ 40 (inteira), para cada dia, e estão à venda em www.sympla.com.br. Não recomendado para menores de 12 anos. 

Entrevista // Aíla Magalhães


Você estará em Brasília para participar do festival Bocadim e será sua estreia na capital. Como está a expectativa para esse show? Como é a sua relação com o público daqui, recebe mensagens dos brasilienses, essas coisas?
Fiquei superfeliz com o convite do festival, ainda mais por ser um festival LGBTQ , que nos tempos de agora é urgente e necessário. E desde que lancei o meu segundo disco, em 2016, tenho a expectativa de chegar com esse Show da turnê em Brasília. Esse trabalho dialoga demais com a cidade, é pop, mas é reflexivo também, aborda questões de gênero, feminismo, resistência. Eu sempre recebo várias mensagens nas redes sociais, da galera de Brasília pedindo o show, do povo dizendo que curte o som, trocando energia boa, sabe? Tô na expectativa de um encontro potente.



O que pode contar do repertório do show na capital?
Esse show que faremos em Brasília é o da turnê Em cada verso um contra-ataque, que estamos circulando agora, do meu segundo álbum, e vou tocar quase todas as músicas desse disco, vai ter Lesbigay, vai ter Rápido, vai ter lambada, vai ter rock. E por ser a primeira vez que vamos nos olhar nos olhos, quero trazer umas duas músicas do primeiro disco também, como Proposta indecente, música que gravei de Dona Onete e repercutiu demais, além de Todo nundo nasce artista, que trás um recado sempre importante e atual.

O seu disco mais recente é de 2016 e tem músicas que estão bastante ligadas aos temas atuais. Como foi o processo de fazer esse álbum? Já se prepara para um novo material?
Arte é revolução. O maior sentido de fazer arte hoje, pra mim, é transformar o agora, é mover, fazer refletir, cutucar, contra-atacar. Somos responsáveis pela construção de espaços de debates, de diálogos. Apesar de vivermos em um mundo controlado pelo medo, pelo capital, pela repressão, nossa arte precisa ser um sopro de resistência e liberdade. Esse segundo disco, Em cada verso um contra-ataque, reflete meus anseios, minhas inquietações, minha vontade de mostrar um Pará mais político, mais ARTivista, que cutuca, que faz dançar, que é pop, mas que é reflexivo também, e conectado com as urgências do agora. Acho que o Pará vive um momento muito especial musicalmente, somos um povo muito potente, muito criativo, e a periferia mostra cada vez mais a latência artística e os novos caminhos... Temos também a Dona Onete, nossa rainha do carimbó, mostrando toda a força da mulher da Amazônia, e uma grande referência para todos nós. Sobre um novo disco, já estou começando a compor pra ele já, e quero o ano que vem colocar esse novo trabalho no mundo.



Você é uma artista que mistura bastante influências sonoras. Quais são as suas referências? E como é ser uma artista que também valoriza a sua própria raiz?
Desde sempre, fui estimulada a ouvir todo tipo de música, de todos os cantos. Ainda no Pará, pelos LPs e fitacassetes da minha mãe, Mutantes, Tropicália e Jovem Guarda a todo vapor. Pelas frequências das rádios, chegavam os sons quentes da América Central que se misturavam as referências locais, cumbia, calypso, lambada. Pelos carros-som e festas de aparelhagem, em altíssimo volume, ecoava o brega, o tecnobrega, que é o beat da periferia. Na adolescência, ouvi demais música brasileira e de artistas transgressores também: Elis, Cazuza, Cássia, Marina, Arnaldo. Minha formação musical tem muita relação com esse mix de referências, essa multiplicidade... Nos últimos anos, em busca de inspirações pro novo trabalho, conheci muita coisa nova, imergi na obra de uma banda brasileira de pós-punk da década de 1980, chamada As Mercenárias, uma banda só de mulheres, com letras diretas, pops, curtas, e políticas, que muito me influenciou a começar a compor. A música Rápido, desse meu novo disco, flerta bastante com essa influência. No meio de todas essas referências novas, o Pará sempre tá ali, como claramente na música Lesbigay, que integra esse meu último disco, que é uma composição minha e de Dona Onete, uma lambada eletrônica que fala sobre questões de gênero, sobre ser quem você é, e amar quem você quiser.

Como foi o seu início na carreira musical?
Nasci na Terra Firme, bairro da periferia de Belém. Meu primeiro disco, o Trelêlê (2012), reflete muito o início da minha carreira, os tradicionais festivais de canção que participei pelo Pará, o convívio com compositores da Região Norte, e todas as influências que me cercavam: carimbó, lambada, brega, guitarrada... A intenção era a de misturar a tradição popular musical do Pará com uma sonoridade mais moderna, muitos discos seguiram esse caminho na época. Naquele momento, tava rolando o “boom tropical” que o Pará viveu e exportou para o resto do Brasil (e exporta até hoje). Aí conheci pessoas queridas, parceiras pra vida toda, como Dona Onete. Fui a primeira cantora a gravar uma música dela, e tenho maior orgulho disso. Meu primeiro videoclipe, lançado em 2013, foi o primeiro videoclipe dela também, Proposta indecente, música que reverberou demais. Em 2015, quando me mudei para São Paulo, a intenção era de criar novas conexões e fazer circular mais o meu trabalho. Aí novas referências chegaram, novos caminhos. Então veio a vontade de compor sobre o agora... O meu lado ativista e inquieto acabou roubando a cena, e fiz o disco Em cada verso um contra-ataque. Sinto que me conectei comigo mesma de vez neste trabalho, refleti meus anseios, minhas inquietudes. E tem o Pará ali ainda, um outro Pará, que faz dançar, mas cutuca, que tem lambada, mas tem punk também. Um Pará que o Brasil precisa conhecer mais. Durante minha carreira, que é curta mas é longa, risos, já me conectei e trabalhei com muitos conterrâneos, como Banda Strobo, Gaby Amarantos, Felipe e Manoel Cordeiro, Mestre Solano e tenho buscado me aproximar cada vez mais dos artistas da periferia, onde encontro ainda mais afinidades, como o rapper Pelé do Manifesto, que pouca gente conhece e tem muito a dizer.

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