Brasília-DF,
22/OUT/2019

Cia. Dos à Deux apresenta espetáculo sobre loucura, confinamento e sanidade

A premiada peça reúne dois dançarinos do teatro em apresentações intensas e contemporâneas

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Roberta Pinheiro Publicação:20/09/2019 06:01Atualização:19/09/2019 21:20
André Curti e Artur Luanda Ribeiro propõem uma peça gestual: que se ouça com os olhos e veja com os ouvidos (Silvio Pozatto/Divulgação)
André Curti e Artur Luanda Ribeiro propõem uma peça gestual: que se ouça com os olhos e veja com os ouvidos


Em cena, os atores-bailarinos da Cia. Dos à Deux, André Curti e Artur Luanda Ribeiro, evocam a palavra não dita. Corpo, luz, sons, gestos e objetos sublinham emoções e histórias. Ouça com os olhos e veja com os ouvidos. Há 20 anos, os dois dançarinos do teatro percorrem o mundo apropriando temáticas e linguagens para a pesquisa gestual.

"O nosso trabalho deixa a possibilidade de você também ter uma liberdade de interpretar da maneira que você quiser. Quero ter essa possibilidade de te dar essa liberdade. É um trabalho sensorial, porque o olhar do espectador pode se atentar a detalhes e coisas que conta, ao mesmo tempo, com corpo, objeto, luz, música. Estou fazendo um apelo a tantas funções suas que certamente isso tudo misturado vai te invocar uma coisa que é tua, pessoal, que nenhum espectador vai se sentir da mesma forma, e para mim isso é a maior riqueza", explica Ribeiro.

Para celebrar a trajetória, a companhia tem percorrido o Brasil e o mundo com alguns espetáculos importantes do repertório — sempre de olho no invisível. Na capital federal, eles apresentam, este fim de semana, Aux Pieds de la Lettre. Uma peça sobre a loucura, resultado de uma imersão no Instituto Psiquiátrico Marcel Rivière, na França. "Se eu fosse dar uma metáfora para o espetáculo, é como se fossem dois malabaristas andando em cima de duas lâminas de barbear. A qualquer momento eles podem deslizar de um lado e de um outro. Depois desses dois anos, eu acho que a loucura permeia a sociedade inteira só que em determinado momento decidimos que alguns vão ser colocados ali dentro ou por falta de sorte ou porque são obrigados. Então, o espetáculo questiona a psiquiatra, os tratamentos. Tudo tratado de uma forma supermetafórica, poética e lúdica", detalha o ator e diretor.

Sem palavras, mas repleto de significados e leituras, Aux Pieds de la Lettre coloca diante do público a loucura contemporânea e desperta questionamentos com um jogo cênico intenso, porém terno; burlesco, porém crítico; solitário, porém coletivo. "É uma viagem onírica, uma viagem de dois personagens que têm uma missiva, que têm que escrever uma carta que eles acreditam que vá salvar o mundo. Tem uma poesia enorme dentro disso. São pessoas como qualquer outra. Todos nós acreditamos que temos uma missão, que temos algo muito importante para fazer nessa existência", finaliza Ribeiro.
 

Duas perguntas // Artur Luanda


Por que reapresentar Aux Pieds de la Lettre?


Estamos em um ano de comemoração. Estar em cena com espetáculos do repertório é porque, de um certo sentido, a gente ainda acredita que esses espetáculos têm um eco contemporâneo sobre as temáticas abordadas. O Aux Pieds de la Lettre é um dos mais importantes do nosso percurso, primeiro, porque foi um dos primeiros espetáculos que criamos e também porque foi uma experiência muito intensa, não só como artista, mas humana. Ficar dois anos dentro de um hospital psiquiátrico, em contato com pacientes, estudando a psiquiatria, tendo um approach intelectual sobre o que realmente é a loucura e, justamente, saindo de lá sem ter as respostas, isso foi um dos pontos mais fortes desse trabalho. Até que ponto quem é louco? Por que colocamos pessoas em sanatórios? Por que nós aqui fora nos auto intitulamos que temos sanidade e os que estão lá dentro são malucos? Até que ponto a sociedade não está pronta para aceitar a diferenças e por isso fechamos pessoas? Por que elas não estão dentro das normas? Por que dopamos essas pessoas para obrigá-las a entrarem dentro dessa norma que é a nossa norma, a norma que a sociedade estipulou que é o normal?

Em todos os trabalhos da Cia. Dos à Deux, há esse olhar para o excluído, por que?


Todas as pessoas que são diferentes, hoje, perante a sociedade, são invisíveis. Você anda na rua e ninguém olha para ninguém. Essas pessoas não fazem parte do que é esse mundo real que a gente diz que é real. Falar sobre a insanidade, a psiquiatria, o confinamento dessas pessoas é, de uma certa forma, ter um olhar diferente para isso, da mesma forma que a gente defende outros temas em outros espetáculos. É um olhar humanista. Acho que o teatro tem essa função primordial de falar do homem contemporâneo e questioná-lo e, de uma certa forma, de a gente poder mostrar isso e mudarmos o nosso ponto de vista, porque só os idiotas não mudam de ideia. O teatro tem essa função de fazer a pessoa mudar um pouco o raciocínio e não é mudar radicalmente. Não tenho essa missão, quero que elas saiam pensando, somente isso. Se elas pensarem somente sobre o que acabei dizer, eu já cumpri meu papel. Um grão de alguma coisa que pode brotar para um novo pensamento e são pensamentos que a gente tem que ecoar. 


 

Serviço

Aux Pieds de la Lettre
No Teatro da Caixa Cultural Brasília. Sexta (20/9) e sábado (21/9), às 20h, e domingo (22/9), às 19h. Teatro gestual da Cia. Dos à Deux. R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia). Não recomendado para menores de 14 anos.

Workshop - O Corpo Poético
No Teatro da Caixa Cultural Brasília. Sexta-feira (20/9) e sábado (21/9), das 13h às 17h, com André Curti e Artur Luanda Ribeiro. Interessados devem enviar currículo para dosadeux.workshop@gmail.com.

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