Brasília-DF,
18/FEV/2018

Confira a entrevista com a atriz Marcelle Sampaio e o diretor Marcelo Morato

A dupla faz parte do elenco do espetáculo musas

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Publicação:09/08/2013 06:10Atualização:08/08/2013 15:59

 (Paula Kossatz/Divulgação)

Os relacionamentos amorosos mal sucedidos e o suicídio são os indícios óbvios que as duas artistas tem em comum. Além disso, o que aproxima Frida e Sylvia?

Marcelle Sampaio: Mais do que as relações amorosas, a Frida tinha um desejo de conseguir fazer com que ela, enquanto mulher, pudesse estar plena. Não só como amante do seu marido, mas como profissional, artista, mãe. A Sylvia também tinha isso muito forte. Ela tinha dois filhos, queria ser uma boa mãe, uma profissional reconhecida e um casamento tranquilo. Isso as aproxima, mas talvez seja um pouco óbvio dentro do universo feminino. São duas artistas conceituais. Nisso, elas se aproximam: uma maneira de não estar morta era estar criando. Para viver, elas tinham que pintar ou escrever. Se a inspiração faltasse, era como uma sentença de morte. Quando queriam enquadrar a Frida como uma pintora surrealista, ela não aceitava. Argumentava que pintava a própria realidade. A Sylvia também potencializa tudo que escreve, tanto as dores quanto as alegrias. Elas se aproximam pela distância. Os opostos a aproximam. Uma aguentou milhões de traições, até coma própria irmã. A outra não suportou um caso de infidelidade. Para Frida, a morte não é como a nossa morte católica, para os mexicanos, é motivo de celebração, consideram-na uma passagem, não um fim. Já Plath, americana, vivia em um país em que a morte é um estigma. Vários prédios não tem o andar treze, por exemplo…

Marcelo Morato: Frida já passou por muitos acidentes e tragédias na vida pessoal e se tornou uma mulher exuberante, generosa e sexual. A Sylvia resistiu menos a pequenas questões, como perder um pai ou o marido, ser traída… Ela conseguiu superar menos, tanto que foi levada ao suicídio após ser abandonada pelo marido. Esse fato de uma não ter agüentado tanto e a outra ter resistido mais pode apresentar a resiliência diante de alguns problemas da vida. Algo pequeno torna-se a gota d’água e, algumas vezes, superamos problemas mais duros. As duas eram casadas com artistas da mesma profissão e eram as musas deles, embora tenham sido traídas. São consideradas artistas de importância intencional, enquanto em vida elas ficaram um pouco abaixo dos maridos.

Frida não gostava dos EUA, chamava os americanos de 'arrogantes de nascença' e sempre preferiu o México. Se fosse contemporânea de Sylvia, teriam uma relação de amizade?

Marcelle Sampaio: É um pouco difícil pensar isso. A Frida tem coisas que parecem óbvias, mas surpreendem. Eu diria que não, que ela não teria o menor saco para a Sylvia e seus grandes dramas, ia falar para ela acordar e viver a vida. Por outro lado, ela poderia me surpreender. O que li sobre ela mostra uma pessoa generosa com os amigos, e muito franca! Se ela tivesse essa oportunidade de aproximação, como a sensibilidade da Sylvia é muito forte e Frida gostava de pessoas inteligentes, poderiam manter uma amizade. Mas essa é pergunta muito difícil.

A peça Musas foi escrita em 1983 por Nestor Caballero, escritor venezuelano. Como foi sua adaptação a esse texto tão cultuado na América Latina?

Marcelo Morato: Tivemos que fazer uma pesquisa da obra de Frida e da Sylvia. Um trabalho voltado para entendimento e compreensão de algumas coisas no texto, mas não que isso tivesse sido aplicado em cena. A peça faz um levantamento de vários aspectos da vida e da obra das duas que são conhecidas. Constrói um mosaico de ações e pequenos trechos, flashes da vida delas. Às vezes, você pensa que não há conexão com a obra, e logo percebe-se que é um trecho de um diário da Frida ou um poema de Sylvia. Reunimos estilhaços da vida e da obra delas e criamos a situação ficcional de um encontro que nunca aconteceu, e o que poderia surgir desses encontros. Elas apresentam formas diferentes de lidar com isso.

A peça pode ser considerada biográfica?


Marcelo Morato: A peça reúne esses aspectos da vida pessoal e do trabalho de ambas, por meio de diálogos complementares. Frida é pulsante e erótica, Sylvia é deprimida. Vivia em um país frio, a outra em um lugar quente. O texto apresenta esses e outros contrastes inusitados e extrai desses encontros vários elementos que são interessantes para se pensar. O texto não conta histórias em ordem cronológica. Ele as coloca em território neutro e de encontro. Como ele não trabalha com cronologia, uma emoção crescente, às vezes uma cena forte e que necessita de muita concentração imediatamente é seguida por uma cena leve em as atrizes precisam mudar rapidamente e ter acesso a momentos alegres. Isso dá um tom contemporâneo ao espetáculo, porque ele não é uma peça biográfica. Nem poderia, porque não há como juntar em cena duas personagens que não se conheceram. Elas se tornam emblemas e comportamentos que foram reunidos no palco. A Frida é mais conhecida, a Sylvia um pouco menos, mas dá para perceber informações sobre como elas viveram, embora não seja uma peça em que você saia com um embasamento detalhado da vida e da obra de cada uma.

As duas atrizes tem o balé em comum. A dança entra, de alguma forma, na peça?

Marcelle Sampaio: Não diretamente. Para mim, a relação do movimento com o tempo e o espaço faz parte do meu estar no palco. Sou diretora de movimento. Mesmo que não tenha nada marcado, o corpo é sempre um caminho de entrada. Não tem uma relação das duas com a dança propriamente dita no trabalho. Temos questões que deixamos mais desenhadas, por conta da própria característica da personalidade delas que se expressa no corpo, porém sem uma ênfase nisso.

O texto sofreu alguma adaptação?


Marcelo Morato: Ele foi escrito na década de 80 e parte de um arquétipo de um personagem, de um tema, propondo reflexões e um diálogo com a nossa forma de lidar com a vida. É todo construído com cenas em que Frida e Sylvia falam sozinhas e em alguns momentos elas dialogam, mas sem invadir o território da outra. Não há contato físico direto, e sim uma percepção sensorial. Não fiz nenhuma adaptação no texto, apenas pequenos cortes, é normal acontecer. Não alteramos e nem enxertamos nada. O autor solicitava isso. Cortamos muito pouco. Isso geralmente acontece com textos clássicos, que possuem um domínio razoável. Aí sim pode-se mexer e brincar com ele, mudar a linguagem ou contar a história do ponto de vista de outro personagem. Mas fazer isso com dramaturgia contemporânea é complicado, porque o próprio dramaturgo realizou esse trabalho de caleidoscópio. É difícil mexer nesse material, porque o Nestor já o fez. Trabalhamos no sentido de compreender o significado dele, porque nem sempre era fácil perceber as cenas, para permitir que o trabalho da atrizes fizesse essa transição rápida de emoção.

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